os gemeos na capa de outra revista!
Seleções Reader's Digest - maio/2008

Ontem eu fui fazer um exame de ultrassom e quando me chamaram tive a surpresa de entrar numa sala já conhecida. Na sala 11 daquela clínica, quase três anos atrás, foi a primeira vez que vi o Mateus e a Mariana na telinha do aparelho. Foi um dia mágico e estar de volta à sala 11 me fez reviver a emoção inesquecível daquele dia. Vivi dentro daquela sala, no instante em que soube que tinha dois bebês na barriga, um dos momentos mais felizes da minha vida.
Eu adoro lembrar, manter memórias vivas, celebrar, comemorar. Sou do tipo de anota datas, guarda recordações de momentos importantes, valoriza símbolos. Estar lá na sala 11 me ativou internamente todos os registros de alegria, ansiedade, realização, surpresa e emoção daquele dia e pude sentir tudo de novo. As vezes sinto saudade da minha gravidez, da minha barriga redonda, de senti-los se mexendo... nossa, era uma delícia. Melhor que isso só mesmo ouvir as risadas, responder as perguntas, assistir as descobertas, fazê-los dormir, brincar com eles.
Mãe, filha, neta, irmã, profissional, mulher, dona de casa, amiga...
Equacionar esses diversos papéis, as vezes dá trabalho. Mas, é justamente desta composição, dos tantos lugares assumidos na vida, que extraio o equilíbrio necessário para seguir adiante nos momentos difíceis. Quando um setor não vai bem, todos os outros me surpreendem com boas notícias. Isso não significa deixar de doer, de sentir as perdas, de chorar pelas decepções. Eu choro, me fragilizo, sofro, vou ao fundo do poço e vivo o luto até o fim. Sim, porque chega uma hora que ele acaba. E, quando acaba, você se reconfigura e se fortalece.
Sinto que ser mãe é uma condição que promove algum tipo de up grade espiritual. É impressionante como a gente evolui, supera adversidades e encara qualquer coisa para defender os filhos. O Mateus e a Mariana não me deixam ficar triste e nem me lamentar quando tenho um problema. Cuidar deles, educá-los, compartilhar suas descobertas, brincar com eles e acompanhá-los a cada dia faz com que eu me sinta pronta para enfrentar o pior dos desafios.
Tenho vivido coincidências, reencontros, redescobertas e repetições de situações que elucidam o meu entendimento desse momento da minha vida. Na medida em que os dias seguem, tropeço em respostas para perguntas que eu ainda nem havia feito. E o que era desfocado, se torna nítido e colorido.
No meio disso tudo, estar em contato com o lado de dentro do mundo da ficção me dá a oportunidade de sentir o pulso do mundo real de um jeito novo. Tenho me emocionado e aprendido muito. Eu adoro viver a vida.
Outro dia, encontramos um cãozinho passeando numa mini cadeirinha de rodas. Mateus e Mariana ficaram encantados.
Paramos para conversar e o dono do bichinho explicou que ele havia ficado paraplégico e, por isso, precisava daquelas rodinhas de apoio nas patas traseiras. Desde então, vira e mexe, as crianças me pedem um “au au de cadeira de rodas... igual a mamãe!”. Achei isso tão bonito que, se eu encontrar um assim, vou acabar adotando!
Há pedidos ainda mais inusitados. Ontem, cheguei em casa esbaforida porque já estava quase na hora deles jantaram e o trânsito tinha me atrasado. O Mateus estava me esperando na porta e, antes de me dar um beijo, disparou:
“mamãe, eu quero um brinco azul!”
Fiquei tentando entender do que se tratava, mas a Mariana esclareceu:
“mamãe, você compra uma cueca rosa para mim?”
...e agora?


Flávia Cintra cansou de ouvir que sua história daria uma novela. E deu. Tetraplégica desde os 18 anos, a jornalista terá seu drama contado por Alinne Moraes em “Viver a vida”. Na novela, que estreia na próxima segunda-feira, a atriz será Luciana, uma modelo que perde o movimento das pernas após um acidente.
— Minha trajetória é uma das inspirações do (autor) Manoel Carlos. Eu era jovem quando soube que nunca mais andaria. Vivi todo o processo por qual Luciana passará, da negação à aceitação — conta ela, que hoje tem 37 anos e é mãe de um casal de gêmeos há dois.
Ativista da causa dos deficientes físicos, Flávia foi chamada para ser consultora da trama. Ela tem preparado Alinne para encarar esse papel. As duas se encontram desde junho.
— Relato minha maneira de enxergar o corpo, a sexualidade. Deficiente físico também trabalha e namora. Essa aproximação com Alinne tem sido fundamental para a construção do papel — conta Flávia.

Alinne concorda:
— Ela me ensinou mais do que como andar de cadeira de rodas. Conversamos muito sobre a experiência dela. Viramos amigas.
Flávia lembra que a emoção tomou conta das duas quando Alinne perguntou como foi a primeira vez que ela reencontrou sua melhor amiga após ficar tetraplégica:
— Nós nos abraçamos, como eu fiz naquela época. E choramos.
Senhor, fazei-me instrumento de vossa paz.
Onde houver ódio, que eu leve o amor;
Onde houver ofensa, que eu leve o perdão;
Onde houver discórdia, que eu leve a união;
Onde houver dúvida, que eu leve a fé;
Onde houver erro, que eu leve a verdade;
Onde houver desespero, que eu leve a esperança;
Onde houver tristeza, que eu leve a alegria;
Onde houver trevas, que eu leve a luz.
Ó Mestre, Fazei que eu procure mais
Consolar, que ser consolado;
compreender, que ser compreendido;
amar, que ser amado.
Pois, é dando que se recebe,
é perdoando que se é perdoado,
e é morrendo que se vive para a vida eterna.
Mateus e Mariana,
Obrigada por terem crescido dentro da minha barriga. Eu nunca me senti tão viva como quando estava grávida de vocês.
Obrigada por terem mamado no meu peito. Alimentar vocês com o leite produzido pelo meu corpo foi a experiência mais fantástica que já vivi.
Obrigada por terem escolhido “mamãe” para ser a primeira palavra que pronunciaram. Ouvir vocês me chamando assim me dá paz e muita felicidade. É um privilégio ser sua mãe.
Obrigada por escalarem minhas pernas para subir no meu colo. Vocês aprenderam a fazer isso sozinhos e me encheram de orgulho.
Obrigada por sorrirem tanto. Cada gargalhada de vocês, cada gritinho de alegria, cada sorriso sapeca que vejo em seus rostos me alimenta de energias boas e torna pequeno o pior dos problemas.
Obrigada por treinarem seus primeiros passos, enquanto brincavam de me empurrar na cadeira de rodas. Foi uma surpresa e um grande presente que vocês me deram.
Obrigada por serem tão diferentes. Participar do crescimento de dois seres humanos tão lindos como vocês são é a maior oportunidade de desenvolvimento pessoal que eu já tive na vida. Sou uma pessoa bem melhor, desde que vocês nasceram.
Obrigada por imitarem meus gestos de tetraplégica. Quando vocês começaram a fazer isso, me senti a pessoa mais importante do mundo.
Obrigada por me fazer valorizar ainda mais a minha mãe. Depois de tê-los na minha vida, pude compreender verdadeiramente a sua avó e dimensionar o amor que ela sente por mim... que é o mesmo que sinto por vocês.
Obrigada por correrem pela casa. Ver vocês brincando, cheios de saúde, me faz sentir que qualquer dificuldade vale à pena para vê-los bem.
Obrigada pelo olhar terno e doce que vocês me dão todos os dias, alguns minutos antes de adormecer.
Obrigada por serem parceiros e se preocuparem sempre um com o outro. Fico aliviada e satisfeita em ver que a sua cumplicidade só cresce.
Obrigada por me fazerem sentir o amor mais sincero e puro do mundo. Não existe nada melhor que estar com vocês.
Com amor,
Mamãe
Nesse último mês, vivi uma transição importante no meu relacionamento comigo mesma, o trabalho, a família e as crianças.
Topei o desafio de dar uma consultoria no Rio de Janeiro. Desde que tenho o Mateus e a Mariana na minha vida, interrompi minhas viagens de trabalho e, até então, a única vez que eu tinha passado uma noite longe deles foi quando precisei dormir no hospital por causa daquela queda no elevador em que bati a cabeça.
O convite para este trabalho, nessa fase que estou, foi o maior presente que eu poderia receber no campo profissional. É um trabalho de grande responsabilidade, de formação de opinião, com possibilidade de gerar resultados de transformação positiva na vida de milhões de pessoas. Senti "borboletas na barriga" desde o primeiro telefonema, pois dimensionei logo no inicio que este trabalho poderia ser a coisa mais impactante que já fiz na minha vida profissional. Mas, o preço foi aceitar que teria que passar alguns dias longe dos meus filhos. Logo de cara, seriam 4 dias! Longos e intermináveis 4 dias...
Ponderei: Eles já vão fazer dois anos, são saudáveis e felizes, criei uma rotina bem estruturada para eles, tenho uma ótima babá, minha mãe mora aqui pertinho e vai passar aqui toda hora para checar se está tudo bem, o Pedro estará aqui e é capaz de suprir qualquer necessidade, enfim... ficarão bem.
Tentava, mas todos esses argumentos não faziam nenhum efeito para aplacar minha angustia. Mudei de estratégia: Vou levá-los comigo! Bom, então preciso levar, além da minha assistente, a babá e a minha mãe. Ao invés de ficar em um hotel, nos instalamos na casa da minha tia e armo lá todo o circo necessário para garantir o cumprimento dos horários, a logística do preparo das refeições, dos banhos, das mamadeiras, das brincadeiras. O Pedro, então, elucidou o quanto isso custaria e o quanto tudo isso seria um sacrifício desnecessário.
Respirei fundo, chorei um pouquinho e fui sozinha. Deixei tudo organizado, as frutas compradas, o cardápio de cada dia escrito, fraldas estocadas, leite no armário, mas ligava o tempo todo para me certificar que estava tudo bem. Gastei de celular mais do que gastaria com todas as passagens e a montagem na casa da minha tia!
Logo na 1ª noite, acordei enjoada com a sensação de que havia comido algo que estivesse me fazendo mal. Adormeci olhando a foto das crianças que estava grudada na parede ao lado da minha cama. De manhã, liguei para saber se estava tudo bem e soube que o Mateus havia passado mal a noite, sentindo ânsia de vômito, no mesmo horário que acordei enjoada. Ainda não foi dessa vez que cortamos o cordão umbilical... o máximo que consegui foi aumentar o comprimento dele!
O livro “Vai encarar?”, da Cláudia Matarazzo, que trata das questões do comportamento e etiqueta entre pessoas sem e com deficiência, foi lançado na última 3ª feira e na 4ª já tinha esgotado a 1ª edição!
Quando se imaginou que um livro sobre este tema, voltado para quem não tem deficiência, faria tanto sucesso? O mundo está mudando, as pessoas estão se interessando pelo convívio com o diverso, valorizando o respeito, a integridade humana, a inclusão. E aí surge um sentimento de inadequação quando a pessoa não sabe como lidar, o que fazer, como se comportar diante de alguém que possua uma deficiência. Esse é o motivo do livro passar para a 2ª edição no dia seguinte ao do lançamento.
Me emociona pensar nisso. No livro, Cláudia conta trechos da minha história, onde digo que no inicio dos anos 90 não se acreditava na idéia de que alguém poderia ter uma vida feliz e produtiva, vivendo em uma cadeira de rodas. E agora, olha isso!
Bom, a 2ª edição vai terminar rápido também. Caso alguém se interesse, eu tenho exemplares à venda por 5 mil reais.

De uns tempos para cá, venho me perguntando se meus filhos já sabem que eu não posso andar. Será que o fato de nunca terem me visto de pé é suficiente para que cheguem a esta conclusão? A resposta veio ontem. Estava sentada na cama e a Mariana chegou para me convidar para brincar. Respondi : “A mamãe já vai com você no jardim, você quer?” Então, ela começou andar pelo quarto, procurando alguma coisa. Me olhou preocupada e perguntou: “A cadeira????”
Capotei ouvindo U2, na madrugada de 16 de outubro de 1991. Apaixonada, feliz e cansada porque a viagem tinha sido ótima, eu voltava para casa com meu namorado, preocupada em chegar a tempo de ainda descansar um pouco, antes do trabalho no dia seguinte.
Esses CDs do U2 me acompanham há 18 anos, desde que eu tinha 18 anos. As vezes, passo muito tempo sem ouvi-los e as vezes vicio em tocá-los todos os dias. Depois do acidente, eles me traziam saudade, depois tristeza, depois inspiração. “I still haven´t found what I´m looking for” foi meu hino por pelo menos uma década. Hoje é a primeira vez que fico sozinha ouvindo meu U2 desde que tive os bebês. Eles estão brincando ali no jardim com a babá, enquanto respondo e mails e penso na vida.
Minha mãe e minhas irmãs vivem comentando o quanto eu mudei. De tanto falarem, tenho tentado prestar mais atenção em mim mesma no último mês - prática pouco freqüente nesses últimos dois anos, já que não sou mais eu o centro da minha vida. Elas tem razão. Mudei muito mesmo. Estou menos explosiva, mais tolerante, menos vaidosa, mais resistente, menos consumista, mais medrosa. Essas mudanças são percebidas por quem convive comigo mais do que por mim mesma. Mas, agora, ouvindo o cd do U2, consegui dimensionar a Flávia que virou outra tão diferente. Por alguns instantes, foi como encontrar comigo mesma na outra versão, olhar no espelho e sorrir para outra pessoa.
Gosto mais dessa que eu sou hoje: a mãe do Mateus e da Mariana.
Estava em um elevador que eu usava muitas vezes por dia. Com pouco espaço, eu sempre entrava de frente e saía de marcha ré para evitar muitas manobras com a cadeira. Era véspera da conclusão daquele projeto e precisei, como tantas vezes, ir até o andar de baixo. Como sempre, eu estava com pressa e, ao deixar o elevador, não olhei para trás. Não vi que ele parou antes de estar alinhado ao piso, formando um degrau de uns 80 cm. Caí de costas e me estatelei no chão, batendo a cabeça com muita força.
Sem entender o que havia acontecido, eu estava no chão com uma dor indescritível dentro da cabeça. Percebi meu rosto molhado com lágrimas, mas eu não estava chorando. Eu estava com os olhos fechados e quando os abri não enxergava nada - estava tudo preto. Senti vontade de vomitar e achei que fosse desmaiar. Tudo isso aconteceu em um segundo. Então, o pensamento: "acho que estou morrendo".
Ouvi a voz de um homem que chegou para me socorrer. Outras vozes se misturaram em volta de mim, enquanto eu pensava no Mateus e na Mariana. "Deus, eu não posso morrer agora!". Respirei fundo. Abri os olhos de novo e respirei outra vez. Comecei a enxergar as pessoas a minha volta, disse que estava tudo bem e pedi para não me tirarem dali ainda. Meu corpo tremia inteiro, continuava querendo vomitar, tudo girava. Fiz uma vistoria mental do meu corpo inteiro, eu estava bem, não havia quebrado nada. Pedi ajuda para me sentar no chão e, quando me senti pronta, voltei para a cadeira de rodas.
Fui atendida no ambulatório, voltei para casa e passei três dias sentindo dores de cabeça e tontura. Não me preocupei porque o médico avisou que isso aconteceria, mas aí eu descobri que não estava sentindo cheiros. Pimenta, perfume, café, não sinto nada. Corri para o hospital e fui internada para fazer exames.
O médico me explicou que minhas tonturas tinham nome: labirintite pós-traumática. Os labirintos se localizam na região posterior da cabeça e a batida fez com que eles se "desequalizassem". "É normal, isso vai passar". E passou.
Contei que na hora do tombo eu perdi a visão e o médico comentou "ainda bem que voltou, que sorte!".
Só naquele instante me dei conta de que poderia ter ficado cega. O que eu tive foi um "apagão" porque o centro nervoso responsável pela visão também fica na parte de trás da cabeça. Perto do estrago que poderia ter acontecido, não sentir cheiros se tornou insignificante.
Ainda não é definitivo. Isso aconteceu há 2 meses e ainda pode acontecer uma reorganização neurológica no meu cérebro que me devolva essa capacidade, não dá para saber o que vai acontecer. A tomografia mostrou um leve machucado na parte frontal do meu cérebro, bem no lugar em que está o bulbo olfativo.
Sempre me achei muito sortuda e minha tendência sempre é ver o lado positivo das coisas. Em comparação à perda da visão, a ausência do olfato é lucro. Quem aprendeu a viver sem andar, pode aprender facilmente a viver sem cheirar! Certo?
Errado.
Outro dia a panela de pressão estava a ponto de decolar porque não senti o cheiro de queimado.
A comida ficou sem gosto porque boa parte do paladar se faz com o olfato.
Não sinto mais aquela sensação ardidinha gostosa quando escovo os dentes. O creme dental ficou com um sabor adocicado, só isso.
Por último, o que mais sinto falta: o cheirinho dos meus pequenos.
Não estou gostando da experiência.
Em uma situação de incêndio, eu já não podia sair correndo. Agora só vou perceber o fogo quando enxergar a fumaça, ou seja, serei a última a saber! Que sacanagem.
Sempre valorizei os aromas, mas se eu recuperar a capacidade de percebê-los vou valorizar ainda mais. Ganhei tanto da vida, tantas alegrias, aprendizados, surpresas boas... sei que não posso reclamar das perdas, mas... ainda assim, adoraria poder evitá-las.
Escrever me faz bem.
Me ajuda a organizar os pensamentos em linha reta e é nesse momento que consigo me ouvir melhor.
Não escrevo pensando em um leitor, faço isso para mim mesma de um jeito egoísta - só para mim.
Talvez por isso, eu nunca vá considerar esse espaço pronto para ser apresentado a alguém que não me seja muito íntimo.
Talvez por isso, eu tenha exercitado a redação tão pouco nesse ano.
Tem havido pouco espaço para mim nos últimos tempos da minha vida.
Não é uma reclamação, só uma constatação.
Ficar em São Paulo foi uma ótima escolha nesse fim de ano. Estou tendo um tempo precioso para estar comigo mesma, fazer meu balanço do ano, me ouvir e até escrever. Por que isso ficou tão raro? Muitas das coisas que gosto tanto de fazer, pensar, ouvir, experimentar, estão empoeirando à espera de um momento em que seja possível sua retomada.
Não me refiro a nada novo, sofisticado ou que demande muito empenho. Estou pensando em coisas simples que eu não fiz nenhuma vez em 2008.
Tempo (ou a falta dele) é um tema recorrente das minhas reflexões. Por que é que eu tenho tanta dificuldade em lidar com isso?
Já tive outras crises como esta e sempre chego à conclusão de que sou uma péssima administradora do tempo. Mas, dessa vez é diferente. Dessa vez eu acho que estou mandando bem na gestão dos minutos. Consigo administrar a agenda da família, a manutenção da casa, as tarefas da empregada, o cardápio das crianças, a reposição dos mantimentos, o calendário da consultas medicas de todos, o pagto de todas as contas da casa, alem de dar conta de todas as atribuições profissionais que não valem à pena listar aqui.
Pensando em tudo o que faço, me acho o máximo. Mas, me vejo medíocre quando lembro das coisas que eu não faço. Prometo que em 2009 vou fazer pelo menos uma vez cada um dos itens listados ali em cima. E vou voltar aqui para contar.
Criei esse blog com a intenção de acumular o registro de pensamentos, sentimentos e reflexões pautados no tema da maternidade, experiência ainda pouco permitida às mulheres que - como eu - vivem em cadeiras de rodas.
Quando fiquei grávida e me deparei com a triste realidade de que os médicos desaconselham esse tipo de gestação e que muitas mulheres acabam abrindo mão de ter filhos por pura ignorância, decidi passar a dedicar parte do meu tempo a este assunto. Esse é o meu jeito de retribuir as bênçãos que venho recebendo da vida. O blog é um instrumento que talvez me ajude a organizar informação para disseminar depois. Só que nos últimos meses, o abandonei de novo. Lembrei que ele existe há poucos dias, quando falei dele para um amigo. Então, voltei a escrever.
Lembro de já ter escrito aqui uma vez que tenho tanta coisa boa na minha vida que não tenho tempo de aproveitar todas. Nunca foi tão difícil gerenciar prioridades e encaixá-las no cronograma de cada dia como nos últimos dois anos. Ao mesmo tempo, nunca me senti tão realizada.
Um dia, quero organizar o conteúdo que estou tentando armazenar para ser compartilhado com mulheres que o busquem.
Tenho uma vida muito agitada, mas simples ao mesmo tempo. Gosto das coisas simples. Gosto da ingenuidade, da inocência, da curiosidade. E ser mãe me dá a possibilidade de conviver com isso. Meus filhos me mostram todos os dias o quanto é possível transformar os dias iguais em eventos inéditos. Eles pesquisam e se interessam por tudo. Criam soluções e brincadeiras que eu jamais imaginei que aconteceriam...
Por exemplo, na parte de trás da minha cadeira de rodas há uma barra horizontal que faz parte da estrutura da cadeira. Quando eles começar a ficar de pé e ensaiar os primeiros passos, descobriram nessa barra um excelente apoio para levantar. Logo em seguida, descobriram que podiam andar assim - me empurrando. Na prática, eu virei um andador, você acredita?
Acho muito interessante pensar nisso. A cadeira de rodas, para muita gente, é sinônimo de vida triste, limitação, infelicidade. Pois, na minha vida, na minha casa, é o contrario. Minha cadeira é um dos brinquedos preferidos do Mateus e da Mariana. Eles adoram sentar nela e passear pelo quintal e disputam o lugar onde está essa barra para me empurrar pela casa.
Fico pensando em como será quando eles crescerem.
Vejo o mundo melhorar, mas ainda existe tanto preconceito, tanta falta de informação... tenho medo que eles se magoem com isso.
Sou mãe de um menino.
Taí um desafio para mim. Quero ser a melhor mãe do mundo para o Mateus. Ele e a Mariana são as pessoas mais importantes da minha vida, nunca quis tanto acertar. E, segundo psicólogos, pedagogos e mães experientes, a única certeza que posso ter é que vou errar.
Ser mãe do Mateus é diferente de ser mãe da Mariana. Eu não sou mãe duas vezes, eu sou duas mães! Isso porque cada um precisa de cuidados e estímulos diferentes. Mas, o Mateus é menino e eu não domino as especificidades masculinas. Algumas coisas importantes que acontecem e vão acontecer na vida dele, eu só conheço em teoria. Aliás, desde garota eu sempre invejei a possibilidade que os meninos possuem de faze xixi de pé. Deve ser muito bom isso! Agora, estou me preparando para ensinar meu filho a fazer xixi desse jeito: com um instrumento que eu não tenho para dar o exemplo e de pé, posição que eu não fico. Ainda bem que tem o Pedro para facilitar essa tarefa!
É diferente com a Mariana, para quem posso usar meu próprio corpo como referencia. Quando ela crescer e perguntar sobre como os bebês nascem, acredito que vai ser fácil explicar sobre ovulação, menstruação, concepção, parto. Eu tenho esse repertório disponível no meu corpo. Com o Mateus, falar de ereção, espermatozóides, ejaculação... será outra história.
Desde que era recém-nascido, todos os dias, seguindo as orientações da pediatra, é importante puxar aquele pelinha que recobre o pênis dele para que não seja necessário fazer operação de fimose no futuro. A idéia é que, aos poucos, a pele vá descendo e se acomodando até deslizar com facilidade. Aquilo me dava uma aflição... Semana passada, vi que a pele desceu mais e percebi que por dentro estava bem vermelho. Será que machucou? Será que está doendo? Será que isso é normal? Fiquei ansiosa esperando o Pedro chegar para olhar e me dizer que "é normal, está tudo bem, é assim mesmo, ele choraria se doesse!". Eu não tinha como saber, é a primeira vez que passo por isso, oras!
Esse menininho lindo tem me ensinado tanta coisa! Ele é doce, carinhoso, alegre, adora árvores, flores, animais - especialmente cachorros. Ele gosta tanto de "au au" que já estou até me preparando para comprar um. Vai ser uma festa!
Uma vez, a Mariana teve febre e o Pedro a levou ao Pronto Socorro, enquanto fiquei em casa com o Mateus. De lá, ele me ligou contando ter visto um casal chegar desesperado com um bebê do tamanho dela nos braços. Ele ouvia os gritou "respira! respira!". A criança estava engasgada com um brinquedo. Não deu tempo de socorrer. Ela morreu ali mesmo.
Quando o Pedro me contou isso, me coloquei no lugar daquela mãe e senti uma dor tão grande... Que Deus os ilumine e dê forças. Se fosse com um filho meu, nem sei...
Mariana, sem saber do que estava acontecendo, distribuía tchauzinhos, piscadas e beijinhos aos que aguardavam atendimento. A febre sumiu e ela voltou para casa, acenando em despedida para todos do hospital. Ela é assim: carismática, sedutora, encantadora... linda!
Ter meus filhos bem, saudáveis e felizes é o principal objetivo da minha vida. Só depois do nascimento deles é que compreendi verdadeiramente o significado do amor incondicional. É muito diferente de todo tipo de amor que eu conhecia. Sou uma pessoa muito melhor porque eles existem.
Desde que o Mateus e a Mariana nasceram, quando vejo uma mulher trabalhando, penso “será que ela tem filhos?”. Fico imaginando onde e com quem estão os filhos dela, tentando perceber se ela sofreu tanto quanto eu em deixá-los pequenininhos em casa para retomar a rotina profissional. Nada é melhor do que estar com eles.
Essa semana, eu descobri que estar com eles não é apenas emocionalmente bom, mas fisicamente também. Meu tio foi em casa me visitar e, me vendo pegar o Homem Aranha no chão para entregar ao Mateus, perguntou: “Nossa, Flávia, desde quando você faz isso?”. Só então eu me dei conta que pegar objetos no chão era muito, muito, muito difícil para mim. Como não tenho equilíbrio de tronco e pouquíssimos movimentos nas mãos, eu raramente me aventurava em alguma tentativa.
A situação mudou, as minhas necessidades e habilidades mudaram com as centenas de vezes que os dois deixaram seus brinquedos caírem no chão. Lembro que era bem difícil nas primeiras vezes, eu demorava até conseguir pegar, mas não me importava e eles esperavam, me olhando com aquelas carinhas sapecas. Muitas vezes, bastava eu entregar o brinquedo para que ele voltasse para o chão. E lá ia eu começar tudo de novo... achando ótimo.
Toda essa brincadeira me rendeu uma melhora de desenvoltura que nem eu mesma tinha reparado nesses últimos meses. Você acredita que agora eu abaixo, pego qualquer coisa e levanto rapidamente e sem quase nada de esforço? Essa e outras conquistas me fizeram concluir que ter filhos é um ótimo recurso de reabilitação J.
Adoro que eles sejam dois.
As vezes, um olha para o outro e ambos saem engatinhando na mesma direção. Fico perguntando se é telepatia, algum tipo de comunicação alternativa ou pura sem-vergonhice. De repente um faz um barulhinho com a boca, o outro cai na gargalhada e os dois ficam rindo um tempão, sem ninguém entender o motivo.
Me emociona ver a sintonia entre eles.
Gosto de saber que eles terão um ao outro quando eu não estiver mais aqui.
“- Oh, Marianinha... oh Marianinha,
entrarás na roda ou ficarás sozinha.
- Sozinha eu não fico, nem hei de ficar
porque eu tenho o Mateusinho para ser meu par!”
Hoje eu cheguei mais tarde no trabalho. Antes de sair de casa, fiquei com a empregada inspecionando tomada por tomada e colando os protetores com fita adesiva. Sim... eles aprenderam a arrancar aquela pecinha de encaixe que tapa os buraquinhos das tomadas!
Cada dia com eles tem sido único, surpreendente, feliz.
Nesse fim de semana, eu e o Pedro estávamos brincando com eles na nossa cama e, de um minuto para outro, o Mateus se apoiou na janela, se ajoelhou e levantou sozinho. Foi a primeira vez que ele conseguiu levantar sem ajuda. Senti um frio na barriga, uma mistura de medo dele cair e alegria por vê-lo de pé. O sentimento seguinte foi de gratidão por estar ali para assistir aquilo.
Ele ficou lá de pé... todo feliz, exibindo sua conquista, enquanto olhava o jardim que tanto gosta pela janela.
A Mariana sempre faz as coisas antes que o Mateus. Muitas pessoas já me disseram que as meninas são mais apressadas mesmo. O primeiro dentinho dela veio antes, começou engatinhar antes e ficou de pé antes.
Ontem ela estava de pé segurando no sofá e, quando cheguei perto, ela apoiou as mãozinhas nos meus joelhos e subiu no pedal da minha cadeira. Ficou me olhando com aquela carinha de sapeca, orgulhosa do que tinha feito, esperando que eu batesse palmas para ela. Bati palmas, beijei, abracei, apertei... e era eu quem estava orgulhosa do esforço que ela fez para chegar no meu colo.
Ver suas conquistas é melhor do que se fosse uma vitória minha.
Bom, na verdade, são vitorias minhas, mas muito mais importantes do se fosse eu que fizesse.
Sinto a alegria deles multiplicada no meu coração cada vez que eles riem.
Para mim, tudo está bem se eles estiverem bem.
Família Fantástica
Fizemos uma matéria que foi ao ar no Fantástico em 13/04/08.
Lá, contamos sobre a minha gravidez, o nascimento dos bebês, as dificuldades, soluções e alegrias.
A matéria pode ser vista on line em http://video.globo.com:80/Videos/Player/Noticias/0,,GIM815228-7823-PARAPLEGICA+EXPERIMENTA+A+MATERNIDADE,00.html.
Fica aqui um agradecimento especial à Renata Ceribelli, pelo carinho, interesse, disponibilidade e cuidado com que tratou do assunto.
http://www.estadao.com.br/suplementos/not_sup133356,0.htm
domingo, 2 de março de 2008, 00:00 | Versão Impressa
Atuante na defesa dos direitos dos deficientes, a tetraplégica Flávia Cintra vivencia agora as alegrias da maternidade
Fabiana Caso - O Estado de S.Paulo

Escrevo tanta coisa mentalmente enquanto estou no chuveiro, no transito ou na cama, antes de dormir... Sempre acredito que “amanhã vai sobrar um tempo e vou colocar esses pensamentos em um texto”, mas o dia acaba e nunca sobra esse tempo.
Daqui há uns dias, vou fazer 35 anos. Não me percebi com 34! Estava grávida no meu ultimo aniversario e, de lá para cá, aconteceu tanta coisa que parece que se passaram 10 anos. Ao mesmo tempo, parece que meu ultimo aniversario foi no mês passado.
Outro dia, enquanto explicava a uma amiga o quanto minha vida anda corrida, ouvi “Nossa, eu imagino, tenho uma colega que nunca mais conseguiu nem passar hidratante depois que o filho dela nasceu. Faço idéia de como isso é para você que tem dois!”.
Hidratante???
Só então me dei conta que há meses não toco nos meus tubos de creme. E o mais interessante é que não tinha pensado nisso ainda. Me dou por satisfeita quando, depois do xampu, ainda tenho tempo para passar condicionador!
O tempo não para e não posso mais ficar só em casa com os bebês. Desde que completaram seis meses, me propus começar retomar, aos poucos, minhas atividades profissionais. Trabalhar à distancia está ficando inviável, comecei a sofrer por não participar das transformações sociais que idealizo, criar, realizar. Então, iniciei o doloroso processo de cortar o cordão umbilical. Como é difícil... tenho saído por meio período e passo todo o resto do tempo com eles, mas quando chega a hora de entrar no carro, eu choro.
Meu marido tem sido um santo para agüentar minhas lamúrias. Mas, sei que logo vai passar. E também sei que o Pedro está apostando nisso!
Chegar em casa e ver os dois sorrindo para mim faz qualquer cansaço desaparecer. Hoje apareceu o primeiro dentinho da Mariana. Em poucos dias, o mesmo vai acontecer com o Mateus... ele não para de coçar as gengivas!
Meu sofrimento é resultado de haver tanta coisa boa na minha vida que faz o calendário se tornar insuficiente. Então, é melhor eu parar de reclamar, né?
os gêmeos na capa da revista

http://sentidos.uol.com.br/canais/materia.asp?codpag=1004&codtipo=10&subcat=103&canal=revista
Outro dia apareceu um rato aqui em casa. Ele passou correndo entre a sala e a cozinha, fazendo disparar gritos da babá e da empregada. Ele era pequeno, mas com um rabo enorme. Tenho horror a ratos, mas o medo que ele pudesse morder um dos meus bebês me deu coragem para enfrentar a fera.
E se ele subir pelas minhas pernas e me morder? Ai... antes isso que esse monstro atacar um nenê! O Pedro só chegaria a noite e eu não podia esperar.
Tracei um plano de ação para caçar o animal, me armei com uma vassoura e municiei a Quitéria e a Sol com rodo e pá de lixo para executar minha estratégia. Nos fechamos na cozinha para encurralar e expulsar o indesejável invasor. Arrastamos armários, fogão, geladeira e nada dele aparecer. Esvaziamos tudo e nem sinal! A tensão e a expectativa aumentavam e nada do bicho dar o ar da graça. Comecei sentir uma ponta de alivio por não ter que encará-lo, mas essa sensação logo era substituída pela preocupação com os bebês. Ele tinha entrado na cozinha, sabia que estava ali, mas não havia mais onde procurar. Desistimos por hora. Passei o resto do dia alerta, atenta a barulhos, vultos, movimentos e resmungos dos bebês. Acabou o meu sossego.
O Pedro comprou uma ratoeira e a deixamos armada debaixo da pia com um pedaço de queijo, acreditando que na manhã seguinte teríamos capturado aquele espertinho. Demorei para dormir e passei a noite tendo pesadelos do tipo “os ratos invadem NYC”.
A ratoeira amanheceu intocada e não encontramos cocô de rato em nenhum lugar da casa.
Estou achando que naquela hora que ele entrou na cozinha, logo saiu para o quintal e foi embora. Tomara!
Passeata SuperAção
http://www.movimentosuperacao.org.br
Data: 01/12/2007
Local: Av. Paulista
A Passeata Movimento SuperAção - Incluindo Diferenças em Defesa dos Direitos Humanos reuniu mais de 2 mil pessoas na Av. Paulista, no dia 1o de dezembro de 2007, em comemoração ao Dia Internacional da Pessoa com Deficiência. O evento foi organizado pelo Movimento Superação e a Associação Mais Diferenças. Maíra Soares, fotógrafa que possui um olhar sensível e talentoso, cobriu o evento e publicou suas fotos em http://www.flickr.com:80/photos/mairasoares/ Eu e o Pedro levamos o Mateus e a Mariana para conhecer os nossos amigos e marcar presença nessa importante manifestação. Ano que vem a gente volta, quando os gêmeos já estarão caminhando.
Na Luta!
O “Na Luta” é um jornal especializado nos assuntos relacionados
à inclusão de pessoas com deficiência que conta com o apoio e
parceria de ninguém menos que o Hebert Vianna.
Eles me entrevistaram quando eu estava grávida.
http://www2.uol.com.br/paralamas/na_luta/naluta2maio2007.pdf
Agora publicaram um depoimento meu sobre como tem sido a
minha vida desde que o Mateus e a Mariana nasceram.
http://www2.uol.com.br/paralamas/na_luta/naluta5outubronovembro2007.pdf
Maricota queria que eu andasse!
Outro dia fui almoçar com uma amiga cadeirante que também é mãe. Durante a conversa, é claro que o assunto mais interessante era o que tratava do universo dos nossos pimpolhos e das soluções encontradas por cada uma para as situações em que a deficiência aparece desafiando nosso desempenho.
Compartilhamos alegrias, descobertas, dúvidas, opiniões pedagógicas, queixas, criticas, medos, planos, escolhas... enfim, ficamos lá no restaurante até quase ser hora do jantar.
Uma hora ela me contou sobre o quanto sofreu quando seu filho se acostumou a ficar no colo das pessoas andando para lá e para cá. Isso estava acontecendo comigo exatamente naquela semana e não sabia mais o que fazer quando a Mariana não parava de chorar no meu colo.
Avós, tios, tias, primos, amigos e todos que nos visitam querem pegar os bebês no colo e costumam ficar de pé. Além disso, existe um hábito de se ficar sacudindo a criança que sempre achei horroroso e, desde que meus filhos nascerem, peço para evitarem chacoalhar os nenês desse jeito. O que eu não pensei é que eles pudessem se acostumar e querer ficar no colo só de pé! Pois a Mariana e se acostumou e preferia o colo de qualquer desconhecido que ande com ela ao meu. Nada do que eu fizesse a tranqüilizava e chorava gritando até que eu a entregasse para alguém de pé. Então, ela parava de chorar e eu começava!
Minha amiga está planejando outro filho e disse que, quando nascer seu segundo bebê, a ordem será para que quem quiser pegá-lo no colo que o faça sentado. Se eu soubesse disso antes...
Será possível que eu mereço uma filha que queira que eu ande?
Tentei de tudo. Segurava a Mariana, deitada, no ombro, de bruços, de lado, sentada, com a barriga para frente, andava pela casa com ela no colo na cadeira motorizada, levava no jardim, cantava, conversava, fazia careta... e ela continuava gritando até que a babá, o Pedro, minha irmã ou qualquer pessoa a pegasse e começasse andar com ela.
Nos duas estávamos sofrendo verdadeiramente com essa situação. Eu sabia que a única solução era insistir, mas tinha medo de “traumatizar”, tinha muita pena de vê-la chorando daquele jeito e ainda passava pela minha cabeça que ela pudesse ter raiva de mim por causa daquilo.
Chegou um dia que me fortaleci e decidi resolver aquela situação. Ela chorou uma hora e quarenta minutos no meu colo, enquanto esperei pacientemente que ela se acalmasse. Enquanto gritava, conversava com ela no tom mais doce possível, dizia que a amava, explicava que não podia levantar, que estava fazendo aquilo pelo nosso bem. Houve momentos em que eu quase chamei a babá. Parecia que ela ia chorar para sempre, mas sabia que minha persistência tinha que ser maior que a dela.
A menininha é fogo, viu... quando fica brava é difícil negar o que ela quer. Mas, infelizmente, não posso educá-la fazendo todas as suas vontades porque a vida não a tratará assim. Naquele momento, precisava fazê-la aceitar isso e confiar em mim. Chegou uma hora que, exausta, ela parou de chorar e dormiu no meu colo. Continuei com elas nos braços sem saber o que fazer. Enquanto pensava se a colocava no carrinho, no berço ou se esperava um pouco mais, ela abriu os olhos, me olhou, deu um sorriso e voltou a dormir.
Missão cumprida.
Amava estar grávida!
Minha pele ficou ótima e meu cabelo estava lindo.
Adorava sentir os nenês se mexerem e ir a uma consulta de ultrassom me causava expectativa semelhante ao que se sente nas vésperas do show do U2.
Não tive enjôos ou azias. Sentia paz e tinha certeza de que tudo daria certo.
Estar sem fazer nada, quando eu estava grávida, nunca era apenas um momento de ócio. Eu sabia que estava produzindo milhões de células, que se dividiam em outros milhões, para gerar o Mateus e a Mariana. Então, estava realizando a atividade mais importante da minha vida!
Me alimentava com qualidade e equilíbrio, dormia muito, bebia água em abundância, assistia todos os filmes que tinha vontade, me sentia saudável, bonita e criativa.
As emoções também eram superlativas. Acho que não houve um dia da minha gravidez que eu não tenha chorado. Se trocasse o canal da TV e me deparasse com uma cena romântica de um filme, eu chorava! Todos os dias, eu assistia um programa sobre partos no Discovery Home Healf e quase me tornei especialista no assunto de tanto que eu vi o bendito programa! Quando o parto era tranqüilo, eu me emocionava e quando era complicado, chorava também!
O tempo se arrastava, mas as vezes parecia passar rápido demais.
Minha barriga ficou linda... redonda, enorme! Minhas roupas não me serviam mais e, nos últimos meses, nem a minha cadeira de rodas me servia mais! Uma vez eu fui comprar um vestido e a vendedora perguntou qual era o meu numero. Eu respondi: “muito grande, você tem?”. Não tinha a menor idéia de que número eu usava, pois a cada mês as minhas medidas mudavam. No final, o peso da barriga se tornou desconfortável e ficou difícil respirar, mas ainda assim eu me sentia feliz, segura e plena.
Quando chegou o dia deles nascerem, parecia que eu estava dentro de um filme. O Pedro estava uma pilha de nervos e preferiu deixar a Fabiola dirigir até o São Luiz. Minha mãe e minhas irmãs estavam eufóricas, enquanto eu era o retrato da serenidade. Me sentia abençoada, protegida, cuidada, forte e feliz. Estava com muita vontade de conhecer o rostinho dos meus bebês, mas não me sentia ansiosa.
Eles chegaram lindos, fortes, chorando alto e tiraram nota 10 no APGAR!
O Mateus nasceu primeiro, às 7:30h, e a Mariana 4 minutos depois. O pessoal da Cryopraxis estava lá para colher o sangue dos cordões umbilicais e o Pedro cortou o cordão da Mariana.
OBRIGADA:
Dr Alberto D'Auria - Maternidade São Luiz
Dr Eduardo Cruz - Cryopraxis
As vezes, quando a Mariana chora, o Mateus começa a chorar junto. Ele grita com todas as suas forças e só para quando um de nós chega para atender a Mariana.
Isso acontece desde que eles tinham semanas de vida. No começo, demoramos a acreditar. Mas, depois de vermos esse comportamento se repetir tantas vezes, já sabemos que ele a ajuda a pedir ajuda! Basta que a Mariana seja atendida para que ele silencie.
Esse tipo de cumplicidade deve fazer parte do repertório tão estudado sobre o vínculo emocional que existe entre os gêmeos.
Eles adoram se olhar, se tocar e sempre que podem seguram a mãozinha um do outro.
Hoje, às 5:30h da manhã, acordei com voz de nenê conversando.
Era a Mariana, toda feliz, cantarolando na língua dela.
As vezes parece um sonho. Nasceu tão pequenininha e em 4 meses está tão esperta, tão saudável, tão linda!
Segundo semestre. Metade do ano já passou, mal posso acreditar... outro dia, eu estava brindando o reveillon na praia! Minha sensação é que a qualquer momento vão me dizer que é natal, você também sente isso?
Quando eu era criança, os adultos comentavam que o tempo passava muito depressa. Não entendia como os acontecimentos de um ano tão longo passavam despercebidos aos olhos deles. Para mim, o último natal era uma lembrança antiga e o próximo sempre demorava a chegar.
O tempo passou, me tornei adulta e me flagro assustada com a velocidade que o tempo passa!
Com tanta coisa para fazer, cronometramos o tempo das tarefas e se não damos conta de tudo que foi programado, nos sentimos culpados. Você já se sentiu assim? Eu já.
Nos queixamos da falta de tempo para fazer coisas que desejamos e não cabem na agenda. Muitas situações dependem de uma escolha consciente, mas outras exigem um olhar individual que respeite o tempo de cada pessoa.
Como você ocupa as 24h do seu dia? Conheço quem durma 5h e acorde bem. Se eu dormir menos que 8h me sinto péssima. Em quanto tempo você sai de casa depois que acorda de manhã? Meia hora? Eu demoro, no mínimo, 1:30h. Sair de casa, para mim, não é só passar pelo no chuveiro, pular dentro de uma calça jeans e correr para o trabalho. O cotidiano matinal de alguém numa cadeira de rodas inclui rituais demorados, não há como evitar. Só nessa ilustração, já contabilizei 4h de prejuízo do meu tempo comparado a outras pessoas. Se ainda considerar os minutos que levo para me transferir da cadeira para o carro e vice-versa ou para ir ao banheiro ao longo do dia, vou chegar a um número de horas que prefiro nem saber!
A velocidade cada vez maior com que as informações circulam e novos eventos acontecem fazem parecer que estamos sempre atrasados. Mas, apesar das possibilidades, convites, solicitações e opções que temos diariamente sobre novos cursos, leituras, shows, workshops, filmes (e etc, etc, etc...) se multiplicarem em progressões geométricas, os dias continuam tendo as mesmas 24h.
Essa consciência é fundamental para que possamos aprender administrar o tempo de um jeito que não nos sintamos frustrados no fim da semana, do mês ou do ano. O exercício de respeitar o próprio tempo e o de cada um, organizando os ajustes necessários em cada situação, é o que vai fazer diferença na construção das relações cooperativas, aquelas que fazem com que todos os envolvidos cresçam, aprendam e se tornem melhores a partir da experiência do outro. Levar em conta o tempo do outro nos possibilita ampliar nossas experiências e potencializar nosso desenvolvimento pessoal. Vale à pena, afinal não temos tempo para viver tudo o que gostaríamos, não é verdade?
Que nesse semestre o relógio marque o tempo necessário para que você realize o que for importante em cada espaço, de cada jeito, com cada um, em cada momento. Que você possa viver no seu tempo. E que, assim, você não se surpreenda quando o natal chegar!
Com carinho,
Flávia Cintra
13/11/07
Ver as conquistas dos meus filhos, de vez em quando me faz lembrar a época da minha reabilitação. Aos 19 anos, mover os braços para depois segurar objetos foi o meu grande desafio. Nesse período estudei sobre o sistema nervoso central e aprendi como o corpo produz os movimentos, com o complexo bale de neurônios que transportam os impulsos elétricos emitidos pelo cérebro.
Depois do acidente, durante a reabilitação e pouco tempo depois, o meu maior desejo foi poder voltar a andar. Falava-se de pesquisas promissoras acontecendo nos Estados Unidos e em Cuba, mas que andavam a passos de tartaruga diante da minha ansiedade por voltar a caminhar.
Nunca imaginei que todo aprendizado que tive para compreender minha deficiência seria aplicado numa situação tão antagônica à daquela época. Estudei o sistema nervoso central para compreender a perda dos meus movimentos. Hoje, vejo nos meus filhos a experiência inversa. São milhares de conexões sendo produzidas o tempo todo, enquanto meus pequenos experimentam e inauguram novos movimentos, gestos e expressões.
Primeiro eles descobriram que, movimentando os braços, podem tocar o que quiserem. Em seguida, perceberam que fechando os dedinhos conseguem segurar seus brinquedos. Agora, associando estas duas habilidades, ambos estão concentrados em levar objetos conscientemente até a boca. Passo horas assistindo os dois trabalhando nessas tarefas. Seguram a chupeta, olham por um tempo a própria mãozinha e começam a levá-la na direção da boca. As vezes a chupeta cai e as vezes eles erram o caminho da boca, mas não desistem. Logo eles vão conseguir cumprir esse objetivo e partirão para o próximo desafio.
Li que o Piaget desenvolveu todas as suas teorias sobre desenvolvimento infantil observando os próprios filhos. Consigo imaginar como foi que isso aconteceu, pois mesmo sem tanto conhecimento pedagógico, fico maravilhada com o amadurecimento diário que vejo nos meus bebês.
Ontem, a Mariana colocou a mãozinha tão dentro da boca que vomitou todo o leite que havia mamado. Eu e o Pedro tomamos um susto e, enquanto a socorríamos, ela ficou parada olhando seriamente para a própria mão. Nada do que fazíamos a desconcentrava da sua mãozinha. Parecia que ela estava tentando compreender o que tinha acontecido. Eu não duvido que estivesse!
19/10/2007
“Ter o coração pulsando do lado de fora do corpo”
Ouvi dizer que ter gêmeos é ter trabalho
Amo Mateus e Mariana desde que soube que eles existiam (no 1º mês de gestação) e sabia que para cada dificuldade haveria uma solução. Houve quem duvidasse que eu pudesse cuidar dos meus filhos por causa da minha deficiência, mas eu e meu marido sempre tivemos certeza que tudo daria certo. Eu sabia que haveria uma série de situações em que esbarraria nas minhas limitações, mas também sabia que ser mãe é muito mais do que desempenhar tarefas físicas.
Agora que os nenês estão com três meses, eu e meu marido confirmamos nossa convicção. Para cuidar deles, tivemos que organizar uma estrutura que suprisse as atividades físicas que não consigo realizar sozinha. Além do maridão, não faltam tias e avós dispostas a ajudar, mas no dia-a-dia conto com a ajuda de uma babá para dar banho, vestir as roupinhas (com aqueles mini-botões de pressão impossíveis de fechar com minha mão de tetra!), colocar e tirar os nenês do carrinho, etc. Na medida em que eles vão crescendo, vou conseguindo fazer mais coisas com autonomia, já que eles vão ficando mais firmes e menos frágeis.
Eu gostaria de não precisar de ajuda e poder fazer tudo sozinha com meus dois bebês. Mas, descobri que isso não é o mais importante, pois consigo oferecer aos dois tudo o que eles precisam. A babá me dá suporte operacional, mas sou eu quem sabe como é a carinha que a Mariana faz quando tem cólica, a expressão do Mateus quando quer fazer cocô, o gesto que eles fazem quando é hora de arrotar. Conheço o choro de cada um e, mesmo à distância, sei quando o Mateus está reclamando porque caiu a chupeta ou quando a Mariana está ranhetando porque quer colo. Controlo o horário das mamadas, da troca das fraldas, do banho e decido roupinha que cada um vai vestir, dependendo da temperatura do dia.
Vivo e vibro cada conquista deles. Nessa semana, o Mateus se dedica a estudar o movimento necessário para levar o bracinho até o brinquedo pendurado no berço, enquanto Mariana se concentra em encaixar os dedinhos dentro da própria boca. Eles ainda não sabem que quando fecham as mãozinhas podem pegar objetos, mas já descobriram que podem controlar os braços para tocar o que lhes interessa. Eles dão gritinhos de alegria quando conseguem atingir o alvo, riem quando converso com uma voz que só faço com eles e conhecem o barulho da minha cadeira motorizada. Me procuram com os olhos quando me ouvem chegando! E, então, me sinto a pessoa mais importante do mundo.
Nunca mais vou estar bem se os dois não estiverem bem.
Li em algum lugar que ser mãe é ter o coração pulsando do lado de fora do corpo e essa é a definição mais exata que encontrei para descrever meu sentimento desde que eles nasceram.
Flávia Cintra
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