Amanhaceu, os passarinhos cantavam no jardim e eu tive tempo para pensar, rezar, agradecer por mais este ano. Adormeci de novo e sonhei com meu pai, com a sensação de que não era sonho. Senti seu abraço, seu cheiro, sua mão tocando meu rosto, seu beijo na minha testa e ouvi atentamente tudo o que ele me disse. Sei que tudo vai acontecer exatamente do jeito que ele me explicou. Acordei de novo, ainda emocionada, e me lembrei da última vez que nos falamos antes dele morrer. Foi no dia do meu aniversário.
Mariana e Mateus acordaram felizes em ver que o dia estava ensolarado. Mateus me disse que estava sol porque esse era o meu presente. Ele tinha razão, o dia foi um presente.
Almoçamos em família, só família – o que inclui alguns amigos, que também são da família. Crianças correndo pela casa, muita comida, muita risada, muita alegria e a inusitada visita de um lindo pássaro colorido que entrou voando pela janela da cozinha.
Surpresas, abraços e declamação de poema por Beto Volpe, que também me trouxe Ganeshs coloridas. Seda, linha, algodão, perfume, Jonh Lennon, lágrimas, brincadeiras e muito amor. Mãe, filhos, irmãos, avó, madrinha, afilhado, tios, primos, amigos, todos celebrando a vida comigo no mesmo dia, ao mesmo tempo...eu sou uma pessoa de muita sorte.
Ainda pude tomar banho chuva no fim da tarde. Chuva de verão, fresca, cheirosa, com vento, emoção e oração.
Deus, obrigada por tanto amor. Obrigada por me mostrar sempre o melhor caminho, me amparar incondicionalmente e me dar sempre tudo o que eu preciso.
Estava atravessando a rua com meus filhos. Mariana dava a mãozinha para Andrea e Mateus para Iara. Eu vinha ao lado deles, observando o modo como as pessoas os olham, verificando se não vinha nenhum carro, dando ok para atravessarem, repetindo que não pode soltar a mão, apontando para irem para o lado menos esburacado da calçada, respondendo as suas perguntas, ao mesmo tempo em que prestava atenção nos cachorros que cruzavam nosso caminho pela rua.
Me lembrei da cena de um documentário em que uma loba cuidava de sua ninhada e me senti a própria. Eu e ela temos em comum o instinto de proteção da prole, como qualquer fêmea animal.
Eu pensava sobre isso, achando graça do meu estado alerta naquele pacato trajeto de quatro quarteirões até chegar à casa da minha mãe, quando paramos para olhar uma cadela que teve três filhotinhos e brincava com eles na garagem de uma casa. Era outra fêmea, como eu e a loba. Eu mergulharia em mais reflexões, mas ouvi uma pergunta que me desconcentrou...
Adoro viajar. Conhecer gente, lugares, sabores, culturas, viver a dinâmica diferente de cada cidade. Desde que as crianças nasceram, puxei o freio de mão para ficar em casa com eles, mas nos últimos meses voltei a transitar por outras cidades a trabalho. Vou e volto no mesmo dia ou, no máximo, volto no dia seguinte. Cada vez que saio, mesmo que por um dia, deixo tudo organizado: cardápio, horários, roupas, etc. E ligo, ligo, ligo toda hora. Não fico em paz se não tiver certeza que o Mateus e a Mariana estão bem.
Precisei passar uma semana no Rio e, então, levei os pequenos comigo para curtir a praia. Planejei encontrar amigos que nunca tenho tempo de ver porque sempre estou correndo. Não vi nenhum. Mesmo tendo tanto tempo, não sobrou tempo! A vida cria bifurcações nos nossos caminhos a todo momento, criando coincidências que alguns chamam de destino.
Cruzei o olhar, a caminho de uma reunião, com um rosto que me pareceu familiar. Ele falava ao celular e seguimos. Então, ouço meu nome e o vejo vindo na minha direção novamente. Era um amigo querido da adolescência. Tínhamos nos perdido de vista, mas sempre lembrei dele com carinho. Jamais imaginei encontrá-lo ali. Depois, cheguei à conclusão que o melhor lugar para encontrá-lo só poderia ser ali mesmo. Ele disse a mesma coisa. O mais inusitado foi descobrirmos que temos uma troca profissional interessante para fazer, alem de anos e anos de histórias para colocar em dia sobre nossas vidas.
A semana foi marcada por uma seqüência de coincidências que me colocaram diante de pessoas com as quais eu tinha algo para aprender, dizer ou dividir. Foi incrível. Estava fumando um cigarro (eita, vício maldito!) na frente do hotel e uma mulher que também fumava puxou assunto. No meio da conversa, descobrimos que ela estava à procura de uma amiga minha com quem perdeu contato. Na mesma hora liguei e passei o telefone para ela, que começou a chorar emocionada assim que ouviu algo que a outra moça disse. Me afastei para deixá-la a vontade e fiquei de longe esperando a conversa terminar para pegar meu celular de volta. Enquanto isso, lembrei do meu amigo que encontrei um dia antes, depois de 20 anos, e fiquei pensando no significado dessas coincidências que nos colocam hora como veiculo, hora como destino deste tipo de encontro que parece marcado. Estou longe de ser uma pessoa mística, mas achei que valia a reflexão. E as coincidências seguiram, mas em situações menores que ainda não sei avaliar a importância.
Já sou conhecida no aeroporto e quase sempre encontro um despachante simpático que me ajuda com a cadeira, com a bagagem e agiliza minha saída. Chegamos em São Paulo e lá estava o Pereira sorrindo à minha espera. Ele trás minha cadeira, acelera meu desembarque e ainda arruma todas as minhas malas no carrinho. Eram 9 malas! Foi o meu record, mas só uma era minha. O resto era da minha tripulação particular: as crianças, a babá, a minha ajudante e a minha mãe. Chegando em casa, ao retirarmos todas do carro, Mateus perguntou: “Mamãe, de quem é essa mala?”. Só nessa hora percebi que o despachante acrescentou a mala de outra pessoa entre as minhas. No meio de tanta bagagem, ninguém viu. Por sorte, havia o telefone do dono na etiqueta. Fiquei tão aliviada que não quis esperar terminar o que estava fazendo e pedi à Iara que ligasse na mesma hora para tranqüilizá-lo. Pensei: “Será outra coincidência preparada para me fazer descobrir ou facilitar uma descoberta importante? Vou descobrir amanhã ”. Pode ser que eu nunca saiba... pois, estava ocupada e a Sandra entregou a mala. Quem sabe nessa mala havia algo muito importante. Tomara que tenha dado certo.
No final do ano passado, em uma das minhas recorrentes reflexões sobre o tempo – ou a falta dele, propus algumas metas para 2009. Cumpri-las dependia, segundo a minha avaliação daquele momento, do quanto eu poderia melhorar a administração das minhas horas.
Passado um ano inteiro, transformada por tudo o que vivi nesse ano, reli o que projetei e pude ver que não fiz tudo o que prometi e fiz um monte de coisas que eu não imaginava. Então, respondi para mim mesma cada um daqueles itens e os coloco agora aqui:
1.Ir ao cinema
Não fui, mas fui ao teatro com as crianças. Também consegui assistir uns DVDs em casa de madrugada. É verdade que por vezes eu dormi antes do filme terminar, mas isso foi culpa do roteiro que não era tão bom!
2.Assistir um show de MPB
Vale voz e violão num fim de tarde de inverno? E show de natal, com direito a Papai Noel, renas e duendes? Os M&M’s amaram... e eu também.
3.Passar um dia na praia até o sol se por
Não fui. Mas, vou fazer isso ano que vem. Só que não será o dia todo porque estarei com as crianças. Será uma delícia apresentar o mar aos meus filhos. Eu cresci na beira da praia e mal posso esperar para ver meus filhos fazendo castelos de areia, correndo sob o sol, rindo e brincando, como eu amava fazer quando criança.
4.Ir à academia
Essa foi uma ambição fora de propósito nessa fase da minha vida. Estou conseguindo retomar os alongamentos, coloquei minhas consultas médicas e exames em dia e me sinto vitoriosa só por isso.
5.Dormir até o meio-dia
Acho que nunca mais isso vai acontecer! Dormir, hoje em dia, é o estritamente necessário e quando dá.
O sono da gravidez deve ser um descanso antecipado, um crédito que a natureza providencia sabiamente às mães que nunca mais irão dormir!
6.Tomar chope com amigos
Não rolou também, mas recebi muitos amigos em casa e fui com as crianças visitar muitos deles. O chope nem fez falta. Além do mais, faz tanto tempo que não bebo nada que meio copo seria suficiente para me deixar de fogo...
7.Fazer limpeza de pele na esteticista
Ah, que bobagem! Não sei onde eu estava com a cabeça quando achei que isso pudesse caber em 2009.
8.Ler (passei esse ano inteiro sem ler um único livro! - se continuar assim, vou emburrecer)
Ah, isso sim! Esse ano eu li uns 10 livros. Tudo bem que metade foi sobre educação e desenvolvimento infantil, mas também li um romance. O resto foi técnico, para me ajudar no trabalho. Também voltei a ler os jornais e as revistas semanais, nada mal!
Para 2010, não tenho metas tão ambiciosas.
Eu quero uma vida comum. Quero dias comuns, com trabalho, família e amigos.
Quero saúde para os meus filhos, para mim e todos ao meu redor.
Quero assistir o desenho do pica-pau, montar quebra-cabeças, passear no zoológico e brincar de pega-pega com Mariana e Mateus.
“Nós estamos sentadas almoçando, quando minha filha casualmente menciona que ela e seu marido estão pensando em 'começar uma família'.
'Nós estamos fazendo uma pesquisa', ela diz, meio de brincadeira. 'Você acha que eu deveria ter um bebê?'
'Vai mudar a sua vida,' eu digo, cuidadosamente mantendo meu tom neutro.
'Eu sei,' ela diz, 'nada de dormir até tarde nos finais de semana, nada de férias espontâneas.. .'
Mas não foi nada disso que eu quis dizer. Eu olho para a minha filha, tentando decidir o que dizer a ela. Eu quero que ela saiba o que ela nunca vai aprender no curso de casais grávidos. Eu quero lhe dizer que as feridas físicas de dar à luz irão se curar, mas que tornar-se mãe deixará uma ferida emocional tão exposta que ela estará para sempre vulnerável.
Eu penso em alertá-la que ela nunca mais vai ler um jornal sem se perguntar 'E se tivesse sido o MEU filho?' Que cada acidente de avião, cada incêndio irá lhe assombrar. Que quando ela vir fotos de crianças morrendo de fome, ela se perguntará se algo poderia ser pior do que ver seu filho morrer.
Olho para suas unhas com a manicure impecável, seu terno estiloso e penso que não importa o quão sofisticada ela seja, tornar-se mãe irá reduzí-la ao nível primitivo da da ursa que protege seu filhote. Que um grito urgente de 'Mãe!' fará com que ela derrube um suflê na sua melhor louça sem hesitar nem por um instante.
Eu sinto que deveria avisá-la que não importa quantos anos ela investiu em sua carreira, ela será arrancada dos trilhos profissionais pela maternidade. Ela pode conseguir uma escolinha, mas um belo dia ela entrará numa importante reunião de negócios e pensará no cheiro do seu bebê. Ela vai ter que usar cada milímetro de sua disciplina para evitar sair correndo para casa, apenas para ter certeza de que o seu bebê está bem.
Eu quero que a minha filha saiba que decisões do dia a dia não mais serão rotina. Que a decisão de um menino de 5 anos de ir ao banheiro masculino ao invés do feminino no McDonald's se tornará um enorme dilema. Que ali mesmo, em meio às bandejas barulhentas e crianças gritando, questões de independência e gênero serão pensadas contra a possibilidade de que um molestador de crianças possa estar observando no banheiro.
Não importa o quão assertiva ela seja no escritório, ela se questionará constantemente como mãe.
Olhando para minha atraente filha, eu quero assegurá-la de que o peso da gravidez ela perderá eventualmente, mas que ela jamais se sentirá a mesma sobre si mesma. Que a vida dela, hoje tão importante, será de menor valor quando ela tiver um filho. Que ela a daria num segundo para salvar sua cria, mas que ela também começará a desejar por mais anos de vida -- não para realizar seus próprios sonhos, mas para ver seus filhos realizarem os deles.
Eu quero que ela saiba que a cicatriz de uma cesárea ou estrias se tornarão medalhas de honra.
O relacionamento de minha filha com seu marido irá mudar, mas não da forma como ela pensa. Eu queria que ela entendesse o quanto mais se pode amar um homem que tem cuidado ao passar pomadinhas num bebê ou que nunca hesita em brincar com seu filho. Eu acho que ela deveria saber que ela se apaixonará por ele novamente por razões que hoje ela acharia nada românticas.
Eu gostaria que minha filha pudesse perceber a conexão que ela sentirá com as mulheres que através da história tentaram acabar com as guerras, o preconceito e com os motoristas bêbados.
Eu espero que ela possa entender porque eu posso pensar racionalmente sobre a maioria das coisas, mas que eu me torno temporariamente insana quando eu discuto a ameaça da guerra nuclear para o futuro de meus filhos.
Eu quero descrever para minha filha a enorme emoção de ver seu filho aprender a andar de bicicleta. Eu quero mostrar a ela a gargalhada gostosa de um bebê que está tocando o pelo macio de um cachorro ou gato pela primeira vez. Eu quero que ela prove a alegria que é tão real que chega a doer. O olhar de estranheza da minha filha me faz perceber que tenho lágrimas nos olhos.
'Você jamais se arrependerá', digo finalmente.
Então estico minha mão sobre a mesa, aperto a mão da minha filha e faço uma prece silenciosa por ela, e por mim, e por todas as mulheres meramente mortais que encontraram em seu caminho este que é o mais maravilhoso dos chamados. Este presente abençoado de Deus... que é ser Mãe.”
"Perdoai-os, Senhor... Eles não sabem o que fazem...", disse Jesus, nos últimos e agonizantes momentos de sua vida! É um dos maiores perdões já ouvidos na história da humanidade.
Só iremos compreender a magnitude destas palavras e a grandeza de quem as proferiu quando lidarmos com os nossos sentimentos.
Em uma época em que reina o "não engulo sapos", o "bateu, levou", o "não levo desaforos para casa", é bom lembrarmos o quanto perpetuamos a cadeia de violência que tanto queremos combater. Raramente uma violência tem causa única. Ela é o resultado prático de inúmeras questões, geralmente envolvendo violências anteriores.
Uma guerra, uma concorrência desleal, um preconceito ou um fanatismo, um complexo de superioridade ou inferioridade, um amor não correspondido, uma ridicularização, uma esperança não realizada, uma confiança traída, uma sentimento indevido de posse, uma suscetibilidade ferida, uma desavença com o vizinho, uma briga entre irmãos, uma alteração psiquiátrica, um estado emocional abalado, uma inveja ou ambição destrutiva, uma diferença de opiniões entre os pais acerca dos próprios filhos, uma inconformidade com a separação conjugal etc. Tudo pode ser explicado por uma série de vertentes, cada uma contendo sua razão. Mas todas elas poderiam ser enormemente minimizadas se houvesse mais tolerância, generosidade e perdão.
Uma ação, voluntária ou não, depende não só de quem a faz, mas também de quem a recebe. Um mesmo gesto pode ser recebido com indiferença ou lisonja por um; ao mesmo tempo, outro ser humano pode se sentir ofendido e prejudicado. Estas duas diferentes recepções podem vir de uma mesma pessoa que esteja passando por diferentes momentos de vida. Como é praticamente impossível controlar as ações e reações das outras pessoas, fica claro o quanto cada um de nós teria de desenvolver a prática da tolerância, da generosidade e do perdão nas suas próprias ações e reações.
Mudança dentro de nós mesmos
Assim, se quisermos viver em um mundo melhor, comecemos por uma mudança dentro de nós mesmos. Vamos praticar a auto e "heterotolerância". Pessoas que cobram muito de si mesmas podem esperar que outras pessoas também sejam assim, e acabam sobrecarregadas com excesso de trabalho e falta de tempo para si. Elas praticam violência contra elas próprias e acabam indispostas com outras pessoas, que as frustram por não pensarem da mesma forma. Priorizar atividades e tempo é fundamental para se viver em paz e tolerar deslizes alheios. Violências podem surgir entre dois apressados no trânsito que acabam se atrasando mais quando se envolvem em acidentes.
Quem não prioriza tempo, atividade e relacionamentos, não está sendo generoso consigo próprio: esse indivíduo procura relevar falhas alheias enquanto suporta e pode se tornar violento quando explode, por não suportar mais. Uma das maneiras de ser generoso é usar a expressão "isso não é comigo" e seguir em frente quando outros cometem inadequações. Pode parecer egoísmo, mas muitas violências surgem quando o inocente reage e ambos acabam brigando porque não querem levar desaforo para casa.
O perdão pode ser um gesto de generosidade e saúde. Quem não perdoa, quem traz o espírito da vingança, da reação a qualquer custo, traz também dentro de si uma insana autoridade prepotente com alma carregada de agressividade. Fica cego quem olha somente as inadequações alheias, pois julga, condena e aplica a pena sem ouvir o que se passou com os outros.
Ser tolerante, generoso e perdoador - longe de ser passivo - é um gerador de almas límpidas que contagiam outras pessoas, desarmando-as da própria violência que carregavam dentro de si.
Meu amigo César Souza me apresentou ao jovem Denilson Shitako, que criou e lidera a Fábrica de Criatividade, no Capão Redondo, no local onde seu pai foi assassinado por ladrões. Denilson é um exemplo de tolerância, generosidade e perdão.
Içami Tiba
Içami Tiba é psiquiatra e educador. Escreveu "Família de Alta Performance", "Quem Ama, Educa!" e mais 25 livros.
Hoje é dia de estar com quem mais amamos e agradecer. Estarei com minha família, sem quem eu não seria nada, celebrando a vida e em paz.
Estou ansiosa à espera dessa noite. Mateus e Mariana estão eufóricos com a chegada do natal, do papai Noel e da festa que reunirá nossa família em torno da linda árvore na casa da vovó.Recuperei a sensação da infância, quando minha mãe alimentava nossas fantasias e vivíamos a deliciosa expectativa do natal. Agora, com meus filhos experimentando isso, eu vivo tudo de novo junto com eles. Está sendo mágico, estou muito feliz.
O tio Beto encontrou, depois de revirar São Paulo, dois foguetes espaciais! Obrigada, Roberto querido... vc foi (e é!) incrível.
Obrigada também a todos os amigos conhecidos e desconhecidos que registraram aqui palavras de carinho e otimismo ao longo do ano. Desejo sinceramente que todos tenham um natal feliz, com saúde, esperança e amor no coração.
Levei Mateus e Mariana à Av. Paulista para ver a decoração de Natal. Havíamos ido semana passada, mas não deu para aproveitar muito porque começou chover. Desta vez, fomos com amigos que tornaram nosso passeio ainda mais divertido. As crianças enlouqueceram com o Papai Noel enorme, as luzes, árvores coloridas e toda a decoração brilhante. O show apresentado na casa do Itaú (antigo Banco de Boston) está imperdível, eles amaram o coral e a neve de mentirinha que cai no final da apresentação.
Como a noite estava gostosa e as crianças agitadíssimas, fomos caminhar pela avenida depois do show. O parque do Trianon está deslumbrante... quando viu, Mariana apontou “olha a floresta encantada! Eu posso entrar?”.
Durante o passeio, comecei a me impressionar com o número de pessoas em cadeira de rodas que encontrei. Crianças, jovens, adultos, velhos... vimos umas trinta pessoas nos quatro quarteirões que percorremos. Mateus, no meu colo, ia me mostrando “olha, mamãe, a cadeira dele é vermelha igual a sua!”. A acessibilidade da avenida Paulista está fantástica, é uma delícia andar naquelas calçadas lisinhas sem trepidar a cadeira, atravessar a rua com rampas bem feitas, se misturar entre as pessoas e aproveitar a cidade. Como eu, um monte de gente foi atraída pelo encantamento das luzes de natal, mas o melhor foi viver isso sem enfrentar nenhuma dificuldade, não precisar vencer nenhum degrau e só me preocupar em curtir a alegria dos meus filhos. Eu só tinha sentido isso fora do Brasil até agora.
Voltei para casa emocionada, feliz por ver meus pequenos tão entusiasmados com nosso passeio e custando a acreditar, pois nem parece verdade, mas a cidade do futuro (aquela acessível a todos) está nascendo... Que FelizCidade !!!
Alguém aí, por favor, sabe me dizer onde estão à venda foguetes espaciais?
Preciso de um rosa e de outro azul.
Nada faz Mateus e Mariana mudarem de idéia. Eles já pediram ao Papai Noel e ambos tem certeza que será este o presente que ganharão no natal. Como se não bastasse, querem que seus foguetes sejam com rodas "iguais a da cadeira da mamãe".
Fomos ao teatro outro dia e eles ficaram encantados com o foguete do personagem. Agora eu estou nessa situação...
Conheça a jornalista que foi uma das fontes de inspiração de Manoel Carlos para a criar a personagem Luciana (Alinne Moraes), de Viver a Vida
por Lidice-Bá
Paulistana criada em Santos, Flávia Cintra, 36 anos, jornalista, teve os gêmeos Mariana e Mateus há dois anos. Ela é tetraplégica e uma das fontes de inspiração do autor Manoel Carlos para escrever a história da personagem Luciana, na novela Viver a Vida. A história de Flávia na cadeira de rodas começou há 18 anos, quando ela sofreu uma lesão parcial na medula provocada por um acidente de carro. Perdeu o movimento total das pernas e parcial dos braços.
Hoje, Flávia é consultora de inclusão e dá palestras em grandes empresas sobre os direitos das pessoas com deficiência, além de fazer projetos com o governo. Falante, fumante, ela trabalha com a atriz Alinne Moraes desde maio, dando consultoria nos capítulos da novela, para que as cenas pareçam reais.
"A Aline está muito bem. Ela tem a noção exata da responsabilidade desse papel. Tem consciência de que está representando mais de 25 milhões de pessoas só no Brasil", diz. Recentemente, Flávia se separou do marido, com quem foi casada por três anos. Mora com os filhos numa casa espaçosa e cheia de verde, na zona Sul de São Paulo. Sua mãe é vizinha e ela tem três assistentes domésticas. Na entrevista a seguir, Flávia conta como transformou um capítulo da sua vida que poderia permanecer como tragédia em "volta por cima".
A história da Luciana pode mudar vidas? "Claro. Tem gente em casa achando que se a pessoa perde os movimentos, a vida acaba. E o pior: a família acredita. Começa a tratar a pessoa como inválida. Minha sorte é que, em 1991, quando sofri o acidente, na minha família ninguém nunca duvidou de que eu poderia, apesar das dificuldades, ter as minhas conquistas".
Como você ficou tetraplégica? "Foi num acidente de carro. Eu voltava com meu namorado de uma viagem pra Serra da Bocaina, um lugar lindo. Era feriado prolongado. Na estrada, depois de uma curva, tinha uma moto e um corpo no chão. Meu namorado foi desviar do corpo e acabou passando por cima da moto, perdeu o controle do carro e a gente capotou. Foi muito rápido e eu estava usando cinto de segurança - senão, não sei o que teria acontecido. Fui socorrida pela ambulância que vinha resgatar a vítima do acidente anterior. Meu namorado, graças a Deus, teve só escoriações leves".
O namoro acabou logo depois? "Nós ainda namoramos por mais um ano e pouco e depois terminamos, por outras questões. Talvez, mesmo se eu não tivesse sofrido o acidente, esse namoro teria acabado. Ele era mais velho: eu tinha 18 e ele tinha 30 anos. Ele era afetivo, parceiro, até hoje tenho um carinho enorme por ele. E ele foi fundamental na época."
Quem mais foi fundamental? "Minha família. Minha irmã mais nova foi tão presente que, aos 11 anos, decidiu a profissão que iria seguir: fisioterapia".
E como vocês pagaram a infra-estrutura hospitalar? "No primeiro momento, fiquei num hospital particular em São Bernardo do Campo, o lugar mais próximo do acidente. Para isso, meu pai se virou, porque a gente não tinha plano de saúde. Ele vendeu os dois carros que tinha e conseguiu resgatar um dinheiro que estava preso no Plano Collor. Depois, passei a frequentar a AACD (Associação de Assistência à Criança Deficiente). Eu morava em Santos, não tinha carro, e vinha fazer reabilitação em São Paulo com a ambulância da prefeitura".
Toda semana? "Todo dia! Minha mãe parou a vida dela. Pediu licença no emprego para cuidar da filha e me acompanhava em tudo. A gente superou essa fase sem ajuda de mais ninguém. Vivíamos com o salário de professora da minha mãe. Meu pai ajudava como podia. O acidente nos reaproximou. Na dor, a gente se uniu".
Quanto tempo durou o período de dor? "Dor física, uns três ou quatro meses. Dor emocional durou mais - acho que um ano. Não um ano chorando, mas um ano de luto, de reelaboração".
Luto? "Sim, porque de uma hora pra outra, você passa a viver numa condição que você nunca previu e nunca planejou. E começa a se perguntar: 'Por que isso foi acontecer comigo?'. A gente vive numa cultura católica forte. Fiz dez anos de terapia pra me livrar disso. O mundo gira em torno da culpa, do pecado e da punição".
E como saiu do luto? "Entendi que estar nessa nova condição não é castigo é uma fatalidade. Eu não estava sendo castigada por nada. Eu passei por uma situação fatal que gerou consequências".
Na novela, a gente sente a angústia da Luciana, na horizontal. Como foi pra você? "Eu passava todo o meu tempo chorando pelas coisas que eu não podia mais fazer: andar na rua, dançar, correr, ficar ofegante de cansaço físico, jogar vôlei na praia, sentir o pé afundando na areia... Essa sensação de sentir o pé afundando na areia com o peso do corpo é uma que até hoje eu sinto uma saudade".
Quando começou a acreditar na sua recuperação? "Eu ainda estava na AACD fazendo reabilitação e, em uma das sessões de terapia ocupacional, pedi para a terapeuta uma peça de adaptação para eu segurar o batom. Como ela era uma alemã brava, ela me deu o batom, colocou o espelho na minha frente e perguntou: 'Qual é a dificuldade?'. Nessa hora me dei conta de que não tinha tentado! Consegui passar na frente dela e chorava: de medo dela e de alegria de ter conseguido! Daí comecei a fazer uma lista de tudo o que eu podia fazer".
Como ficou seu lado afetivo nesses anos em cadeira de rodas? "Eu tive vários namorados até casar e ter filhos".
Onde conheceu seu ex-marido? "No trabalho. Eu era chefe dele, quando fui vice-presidente do Instituto Paradigma, em 2006. Felizmente, foi a presidente da empresa quem o contratou (risos)".
É diferente a paquera de um cadeirante? "A paquera não, mas a deficiência seleciona quem vai te paquerar. Porque o cara está vendo que eu estou na cadeira de rodas e, se ele vem falar comigo, já vem sabendo que eu não quebrei o pé".
Mais alguma diferença? "Tem: é a falta do bumbum. O bumbum tem uma apelo sexual muito grande, no Brasil. Se você está sentada o tempo todo; o cara não vê o bumbum. Daí você tem que usar outros recursos: explorar pernas, colo, braços. O bumbum ele só vai ver depois que a coisa foi para 'os finalmente'. O bumbum é o prêmio depois que você cria intimidade".
Você sente prazer, no sexo a dois ou mesmo sozinha? "Eu tenho uma característica particular: a minha lesão foi incompleta e, por isso, recuperei a minha sensibilidade total. Existem pessoas que não recuperam, mas elas também sentem prazer com o outro. Um amigo meu fala que o orgasmo acontece entre as orelhas - no cérebro - e não entre as pernas".
Como foi a gravidez? "Maravilhosa! Fiquei grávida no susto. A gente planejava para um ano depois e aconteceu. Eu nem sabia que podia ficar grávida! Estava me preparando pra casar e tivemos que antecipar tudo. Fui morar junto. Ele queria acompanhar a gravidez e ela foi tranquila e saudável".
Ser cadeirante te impediu alguma coisa? "Até o sétimo mês, foi tudo normal. Daí eu comecei a ter desconforto. Minha barriga era gigante e comecei a ficar muito mais tempo na cama. Ficava sentada... Eu tinha seguro médico, mas ele não cobria a Maternidade São Luís. E a UTI neonatal deles era uma coisa que me preocupava, porque eu precisava - eram dois prematuros a caminho. Liguei lá, falei: 'Minha situação é essa. E estou falida de grana e queria pagar em dez anos'. Marquei uma reunião com o diretor clínico, Alberto D’Aurea. Ele me ouviu e no dia seguinte me disse que estava tudo ok. Perguntei: “Mas onde eu assino, quanto vai ser por mês?'. Ele respondeu: “Não, você não vai pagar'".
Quais as principais adaptações de uma casa para um cadeirante? "É colocar rampa no lugar de degrau, ter portas mais largas e um banheiro espaçoso para poder entrar e se mexer".
Como você se locomove no dia a dia? "Eu não dirijo, mas tenho uma pessoa que dirige pra mim".
E o que falta no mundo lá fora, pra quem é cadeirante? "Acessibilidade. Se eu não tenho carro, como ando na rua? Com ruas esburacadas, guias não rebaixadas? Como subo no ônibus? Como vou de metrô? Como é nas empresas, para receber funcionários? Se temos acesso a tudo isso, a gente promove o convívio, e o contato tira a ideia de que ser cadeirante é o fim do mundo".
Você se acha forte? "Não sou frágil. E minha força não é privilégio meu. Anos antes disso acontecer comigo, eu pensei: 'Se eu perdesse os movimentos, eu morreria'. Mas quando perdi, morrer nem passou pela minha cabeça! A gente não sabe do que é capaz! A gente só descobre quando a vida te põe à prova. Você não sabe o quanto você é poderosa, você só sabe na hora que enfrenta uma situação difícil e você tem que superar. Aí você descobre o quanto é forte".
Como a família pode colaborar? "Permitindo que a pessoa experimente, tente fazer as coisas sozinha. Porque vira automático! Você diz: 'Quero água' e já vem o copo de água. E não é por mal. É que o comportamento do cuidar fica condicionado. Cuidar é necessário, mas se passa do limite, vira uma situação de subestimar a pessoa deficiente".
Mas é difícil saber o limite. "Lógico que é! A pessoa tem que observar. Se a pessoa consegue cortar o bife sozinha, deixe-a. Não a trate como criança. Se ele não consegue amarrar o sapato, amarre pra ele. Ou sugira que, para ser independente, passe a usar um sapato que não precisa amarrar".
E com relação aos amigos? "Eles também acabam ficando superprotetores. A grande dica é sempre perguntar. E a convivência vai te dando as respostas".
Financeiramente, você se considera estável? "Ainda não. Eu pago todas as minhas contas e vivo com dignidade".
Consegue guardar dinheiro? "Não, mas preciso! Tenho dois filhos. E não quero que falte nada pra eles. Meu único medo na vida é de eles precisarem de alguma coisa que eu não possa dar".
Era uma tarde barulhenta e movimentada como todas são aqui em casa.
Eles brincavam de esconde-esconde enquanto começávamos preparar o jantar. Mariana, então, invade a cozinha para reclamar que Mateus havia lhe tirado algo. Mateus chega logo atrás, com cara de quem aprontou, esperando para ver o que aconteceria. Ela chorava nervosa, inconformada, suplicando que ele lhe devolvesse seu “zibumbi”. Ele colocava as mãos para trás, dizendo que não. E ela chorava mais. Eu perguntava o que era e onde estava o “zibumbi” e ela apontava para as mãos dele. Mateus estava com as mãos vazias, mas agia como se segurasse um objeto precioso. Depois de intensa negociação, ele aceitou devolver. Ele estendeu o braço na direção da irmã, entregando a ela o “zibumbi” que só eles viam. Mariana o pegou com todo cuidado e ainda agradeceu.
Foi assim que um amigo profetizou que seria minha vida em 2009, quando contei a ele sobre minha emoção ao ver Mateus atravessar a sala da minha casa, dando seus primeiros passos sozinho, na noite de 31 de dezembro de 2008. Entrei em 2009 renovada, otimista e muito feliz por ver meus filhos crescendo felizes, saudáveis, mais lindos a cada dia.
E, como previu meu amigo, foi um ano de larga caminhada. Assim como Mateus e Mariana, eu dei passos importantes rumo ao meu próprio desenvolvimento. Também como meus filhos, tropecei, me machuquei, acertei e errei. A vida tem sido muito boa para mim e nesse ano, na doce companhia dos meus pequenos, confirmei minha teoria que tudo o que acontece é sempre para o bem. Por vezes somos pegos de surpresa, ficamos sem chão, nos entristecemos ou nos alegramos demais e esquecemos que todas as fases são importantes, as boas e as ruins. Concretizei e compreendi isso em 2009.
Me sinto grata a Deus por todas as coisas felizes e tristes que vivi. Realizei um programa de capacitação profissional para 500 pessoas com deficiência, projeto que sonhava há anos e isso me deixou muito realizada. Me separei do Pedro e sofri muito naqueles dias, mas também fui convidada pela TV Globo para realizar um trabalho que me orgulha e me alegra. Consegui manter minha meta de trabalhar e, ao mesmo tempo, passar muito tempo em casa com as crianças durante o ano todo e isso, para mim, não tem preço. Fiquei um pouco frustrada por não ter recuperado totalmente o olfato e agora, um ano depois da queda, sei que dificilmente terei evoluções. Mas, já me acostumei e, hoje, valorizo cada aroma sutil que consigo perceber... tanto os agradáveis quanto os indigestos.
Ainda temos dezembro inteiro pela frente, mas já sinto uma sensação antecipada de missão cumprida. Estava revendo posts antigos e vi um que eu nem me lembrava ter escrito, onde listo coisas que prometi fazer em 2009. Tenho pensado sobre elas, seu significado e real importância, e voltarei aqui antes do ano terminar para fazer este balanço. Por enquanto, como diz a música, “tudo é uma questão de manter a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranqüilo”.
A Oficina dos Menestréis apresenta um novo espetáculo, com um elenco formado por cadeirantes e deficientes visuais!
A MANSÃO DE MISS JANE MIX é um espetáculo que retrata a história de uma mansão que já teve seus dias de glória e seus tempos de alegria que pareciam infinitos. Nela, criaturas fantásticas, lendas urbanas, monstros eternos e psicopatas cruéis se misturam aos simples mortais. Até que homens da prefeitura vão à mansão exigindo que a proprietária, Miss Jane, pague suas dívidas ou entregue a casa. O que a velha senhora não sabe é que ela não está sozinha, e que as criaturas que ali habitam tentam arranjar uma maneira de ajudá-la. No melhor estilo Rocky-Horror-Show, “A Mansão de Miss Jane” traz muita comédia, versões de clássicos do rock, além de coreografias inusitadas e uma história de arrepiar! É um espetáculo de Candé Brandão, Sabrina Wilkins e Tchello Palma, agora em versão adaptada por Deto Montenegro para cadeirantes e deficientes visuais.
Quando? Dias 28 e 29 de Novembro 05 e 06 de Dezembro Sábados 21h e Domingos 20h
Onde? Teatro Dias Gomes (dentro de uma galeria) Rua Domingos de Morais, 348 Vl. Mariana - São Paulo Estacionamento Amira Park em frente
Quanto? Com alguém do elenco sai R$15,00 Na porta sai R$40,00 e R$20,00 meia entrada
Você pode entrar no site da Oficina dos Menestréis e fazer a carteirinha, apresentando na bilheteria o ingresso sai por R$15,00. www.oficinadosmenestreis.com.br
Muitas pessoas têm me perguntado se eu me emociono com a história da Luciana (Alinne Moraes, personagem de Viver a Vida) por me lembrar do meu acidente. Eu me emociono sim, bastante.Mas, o que me emociona é a história da personagem, acho lindo ver o quanto a Aline está entregue e absorvida nesse trabalho. As vezes, existem cenas que me fazem lembrar de coisas que aconteceram comigo de um jeito parecido, logo depois do meu acidente. Estas lembranças são vivas em mim, só que os sentimentos relacionados àquela época foram elaborados, trabalhados e esgotados... ficaram lá atrás. Eu lembro que sofri, mas não sofro por lembrar.
Atravessei um momento difícil uns meses atrás e a Luciana me ajudou muito. Ela me lembrou da fase mais difícil que já vivi, me fez lembrar que houve dias que achei que não ia agüentar, assim como acontece com ela nessa fase da novela. E eu agüentei, consegui, fui forte. Mais do que isso, eu cheguei até aqui. Ela me lembrou que quando eu penso que o que está acontecendo é horrível demais e eu não vou aguentar, basta esperar a vida apresentar novas possibilidades. Foi isso que eu fiz e deu certo outra vez.
Ontem eu fui fazer um exame de ultrassom e, quando me chamaram, tive a surpresa de entrar numa sala já conhecida. Na sala 11 daquela clínica, quase três anos atrás, foi a primeira vez que vi o Mateus e a Mariana na telinha do aparelho. Foi um dia mágico e estar de volta à sala 11 me fez reviver a emoção inesquecível daquele dia. Vivi dentro daquela sala, no instante em que soube que tinha dois bebês na barriga, um dos momentos mais felizes da minha vida.
Eu adoro lembrar, manter memórias vivas, celebrar, comemorar. Sou do tipo de anota datas, guarda recordações de momentos importantes, valoriza símbolos.Estar lá na sala 11 me ativou internamente todos os registros de alegria, ansiedade, realização, surpresa e emoção daquele dia e pude sentir tudo de novo. As vezes sinto saudade da minha gravidez, da minha barriga redonda, de senti-los se mexendo... nossa, era uma delícia. Melhor que isso só mesmo ouvir as risadas, responder as perguntas, assistir as descobertas, fazê-los dormir, brincar com eles.
Se chorei o se sorri, o importante é que emoções eu vivi... rs
Mãe, filha, neta, irmã, profissional, mulher, dona de casa, amiga...
Equacionar esses diversos papéis, as vezes dá trabalho. Mas, é justamente desta composição, dos tantos lugares assumidos na vida, que extraio o equilíbrio necessário para seguir adiante nos momentos difíceis. Quando um setor não vai bem, todos os outros me surpreendem com boas notícias. Isso não significa deixar de doer, de sentir as perdas, de chorar pelas decepções. Eu choro, me fragilizo, sofro, vou ao fundo do poço e vivo o luto até o fim. Sim, porque chega uma hora que ele acaba. E, quando acaba, você se reconfigura e se fortalece.
Sinto que ser mãe é uma condição que promove algum tipo de up grade espiritual. É impressionante como a gente evolui, supera adversidades e encara qualquer coisa para defender os filhos. O Mateus e a Mariana não me deixam ficar triste e nem me lamentar quando tenho um problema. Cuidar deles, educá-los, compartilhar suas descobertas, brincar com eles e acompanhá-los a cada dia faz com que eu me sinta pronta para enfrentar o pior dos desafios.
Tenho vivido coincidências, reencontros, redescobertas e repetições de situações que elucidam o meu entendimento desse momento da minha vida. Na medida em que os dias seguem, tropeço em respostas para perguntas que eu ainda nem havia feito. E o que era desfocado, se torna nítido e colorido.
No meio disso tudo, estar em contato com o lado de dentro do mundo da ficção me dá a oportunidade de sentir o pulso do mundo real de um jeito novo.Tenho me emocionado e aprendido muito. Eu adoro viver a vida.
Outro dia, encontramos um cãozinho passeando numa mini cadeirinha de rodas. Mateus e Mariana ficaram encantados.
Paramos para conversar e o dono do bichinho explicou que ele havia ficado paraplégico e, por isso, precisava daquelas rodinhas de apoio nas patas traseiras. Desde então, vira e mexe, as crianças me pedem um “au au de cadeira de rodas... igual a mamãe!”. Achei isso tão bonito que, se eu encontrar um assim, vou acabar adotando!
Há pedidos ainda mais inusitados. Ontem, cheguei em casa esbaforida porque já estava quase na hora deles jantaram e o trânsito tinha me atrasado. O Mateus estava me esperando na porta e, antes de me dar um beijo, disparou:
“mamãe, eu quero um brinco azul!”
Fiquei tentando entender do que se tratava, mas a Mariana esclareceu:
Senhor, fazei-me instrumento de vossa paz. Onde houver ódio, que eu leve o amor; Onde houver ofensa, que eu leve o perdão; Onde houver discórdia, que eu leve a união; Onde houver dúvida, que eu leve a fé; Onde houver erro, que eu leve a verdade; Onde houver desespero, que eu leve a esperança; Onde houver tristeza, que eu leve a alegria; Onde houver trevas, que eu leve a luz. Ó Mestre, Fazei que eu procure mais Consolar, que ser consolado; compreender, que ser compreendido; amar, que ser amado. Pois, é dando que se recebe, é perdoando que se é perdoado, e é morrendo que se vive para a vida eterna.
Obrigada por terem crescido dentro da minha barriga. Eu nunca me senti tão viva como quando estava grávida de vocês.
Obrigada por terem mamado no meu peito. Alimentar vocês com o leite produzido pelo meu corpo foi a experiência mais fantástica que já vivi.
Obrigada por terem escolhido “mamãe” para ser a primeira palavra que pronunciaram. Ouvir vocês me chamando assim me dá paz e muita felicidade. É um privilégio ser sua mãe.
Obrigada por escalarem minhas pernas para subir no meu colo. Vocês aprenderam a fazer isso sozinhos e me encheram de orgulho.
Obrigada por sorrirem tanto. Cada gargalhada de vocês, cada gritinho de alegria, cada sorriso sapeca que vejo em seus rostos me alimenta de energias boas e torna pequeno o pior dos problemas.
Obrigada por treinarem seus primeiros passos, enquanto brincavam de me empurrar na cadeira de rodas. Foi uma surpresa e um grande presente que vocês me deram.
Obrigada por serem tão diferentes. Participar do crescimento de dois seres humanos tão lindos como vocês são é a maior oportunidade de desenvolvimento pessoal que eu já tive na vida. Sou uma pessoa bem melhor, desde que vocês nasceram.
Obrigada por imitarem meus gestos de tetraplégica. Quando vocês começaram a fazer isso, me senti a pessoa mais importante do mundo.
Obrigada por me fazer valorizar ainda mais a minha mãe. Depois de tê-los na minha vida, pude compreender verdadeiramente a sua avó e dimensionar o amor que ela sente por mim... que é o mesmo que sinto por vocês.
Obrigada por correrem pela casa. Ver vocês brincando, cheios de saúde, me faz sentir que qualquer dificuldade vale à pena para vê-los bem.
Obrigada pelo olhar terno e doce que vocês me dão todos os dias, alguns minutos antes de adormecer.
Obrigada por serem parceiros e se preocuparem sempre um com o outro. Fico aliviada e satisfeita em ver que a sua cumplicidade só cresce.
Obrigada por me fazerem sentir o amor mais sincero e puro do mundo. Não existe nada melhor que estar com vocês.
Nesse último mês, vivi uma transição importante no meu relacionamento comigo mesma, o trabalho, a família e as crianças.
Topei o desafio de dar uma consultoria no Rio de Janeiro. Desde que tenho o Mateus e a Mariana na minha vida, interrompi minhas viagens de trabalho e, até então, a única vez que eu tinha passado uma noite longe deles foi quando precisei dormir no hospital por causa daquela queda no elevador em que bati a cabeça.
O convite para este trabalho, nessa fase que estou, foi o maior presente que eu poderia receber no campo profissional. É um trabalho de grande responsabilidade, de formação de opinião, com possibilidade de gerar resultados de transformação positiva na vida de milhões de pessoas. Senti "borboletas na barriga" desde o primeiro telefonema, pois dimensionei logo no inicio que este trabalho poderia ser a coisa mais impactante que já fiz na minha vida profissional. Mas, o preço foi aceitar que teria que passar alguns dias longe dos meus filhos. Logo de cara, seriam 4 dias! Longos e intermináveis 4 dias...
Ponderei: Eles já vão fazer dois anos, são saudáveis e felizes, criei uma rotina bem estruturada para eles, tenho uma ótima babá, minha mãe mora aqui pertinho e vai passar aqui toda hora para checar se está tudo bem, o Pedro estará aqui e é capaz de suprir qualquer necessidade, enfim... ficarão bem.
Tentava, mas todos esses argumentos não faziam nenhum efeito para aplacar minha angustia. Mudei de estratégia:Vou levá-los comigo! Bom, então preciso levar, além da minha assistente, a babá e a minha mãe. Ao invés de ficar em um hotel, nos instalamos na casa da minha tia e armo lá todo o circo necessário para garantir o cumprimento dos horários, a logística do preparo das refeições, dos banhos, das mamadeiras, das brincadeiras. O Pedro, então, elucidou o quanto isso custaria e o quanto tudo isso seria um sacrifício desnecessário.
Respirei fundo, chorei um pouquinho e fui sozinha. Deixei tudo organizado, as frutas compradas, o cardápio de cada dia escrito, fraldas estocadas, leite no armário, mas ligava o tempo todo para me certificar que estava tudo bem. Gastei de celular mais do que gastaria com todas as passagens e a montagem na casa da minha tia!
Logo na 1ª noite, acordei enjoada com a sensação de que havia comido algo que estivesse me fazendo mal. Adormeci olhando a foto das crianças que estava grudada na parede ao lado da minha cama. De manhã, liguei para saber se estava tudo bem e soube que o Mateus havia passado mal a noite, sentindo ânsia de vômito, no mesmo horário que acordei enjoada. Ainda não foi dessa vez que cortamos o cordão umbilical... o máximo que consegui foi aumentar o comprimento dele!
O livro “Vai encarar?”,da Cláudia Matarazzo, que trata das questões do comportamento e etiqueta entre pessoas sem e com deficiência, foi lançado na última 3ª feira e na 4ª já tinha esgotado a 1ª edição!
Quando se imaginou que um livro sobre este tema, voltado para quem não tem deficiência, faria tanto sucesso? O mundo está mudando, as pessoas estão se interessando pelo convívio com o diverso, valorizando o respeito, a integridade humana, a inclusão. E aí surge um sentimento de inadequação quando a pessoa não sabe como lidar, o que fazer, como se comportar diante de alguém que possua uma deficiência. Esse é o motivo do livro passar para a 2ª edição no dia seguinte ao do lançamento.
Me emociona pensar nisso. No livro, Cláudia conta trechos da minha história, onde digo que no inicio dos anos 90 não se acreditava na idéia de que alguém poderia ter uma vida feliz e produtiva, vivendo em uma cadeira de rodas. E agora, olha isso!
Bom, a 2ª edição vai terminar rápido também. Caso alguém se interesse, eu tenho exemplares à venda por 5 mil reais.
De uns tempos para cá, venho me perguntando se meus filhos já sabem que eu não posso andar. Será que o fato de nunca terem me visto de pé é suficiente para que cheguem a esta conclusão? A resposta veio ontem.
Estava sentada na cama e a Mariana chegou para me convidar para brincar. Respondi :
“A mamãe já vai com você no jardim, você quer?”
Então, ela começou andar pelo quarto, procurando alguma coisa. Me olhou preocupada e perguntou:
Capotei ouvindo U2, na madrugada de 16 de outubro de 1991. Apaixonada, feliz e cansada porque a viagem tinha sido ótima, eu voltava para casa com meu namorado, preocupada em chegar a tempo de ainda descansar um pouco, antes do trabalho no dia seguinte.
Esses CDs do U2 me acompanham há 18 anos, desde que eu tinha 18 anos. As vezes, passo muito tempo sem ouvi-los e as vezes vicio em tocá-los todos os dias. Depois do acidente, eles me traziam saudade, depois tristeza, depois inspiração. “I still haven´t found what I´m looking for” foi meu hino por pelo menos uma década. Hoje é a primeira vez que fico sozinha ouvindo meu U2 desde que tive os bebês. Eles estão brincando ali no jardim com a babá, enquanto respondo e mails e penso na vida.
Minha mãe e minhas irmãs vivem comentando o quanto eu mudei. De tanto falarem, tenho tentado prestar mais atenção em mim mesma no último mês - prática pouco freqüente nesses últimos dois anos, já que não sou mais eu o centro da minha vida. Elas tem razão. Mudei muito mesmo. Estou menos explosiva, mais tolerante, menos vaidosa, mais resistente, menos consumista, mais medrosa. Essas mudanças são percebidas por quem convive comigo mais do que por mim mesma.Mas, agora, ouvindo o cd do U2, consegui dimensionar a Flávia que virou outra tão diferente. Por alguns instantes, foi como encontrar comigo mesma na outra versão, olhar no espelho e sorrir para outra pessoa.
Gosto mais dessa que eu sou hoje: a mãe do Mateus e da Mariana.
Estava em um elevador que eu usava muitas vezes por dia. Com pouco espaço, eu sempre entrava de frente e saía de marcha ré para evitar muitas manobras com a cadeira. Era véspera da conclusão daquele projeto e precisei, como tantas vezes, ir até o andar de baixo. Como sempre, eu estava com pressa e, ao deixar o elevador, não olhei para trás. Não vi que ele parou antes de estar alinhado ao piso, formando um degrau de uns 80 cm. Caí de costas e me estatelei no chão, batendo a cabeça com muita força.
Sem entender o que havia acontecido, eu estava no chão com uma dor indescritível dentro da cabeça. Percebi meu rosto molhado com lágrimas, mas eu não estava chorando. Eu estava com os olhos fechados e quando os abri não enxergava nada - estava tudo preto. Senti vontade de vomitar e achei que fosse desmaiar. Tudo isso aconteceu em um segundo. Então, o pensamento: "acho que estou morrendo".
Ouvi a voz de um homem que chegou para me socorrer. Outras vozes se misturaram em volta de mim, enquanto eu pensava no Mateus e na Mariana. "Deus, eu não posso morrer agora!". Respirei fundo. Abri os olhos de novo e respirei outra vez. Comecei a enxergar as pessoas a minha volta, disse que estava tudo bem e pedi para não me tirarem dali ainda. Meu corpo tremia inteiro, continuava querendo vomitar, tudo girava. Fiz uma vistoria mental do meu corpo inteiro, eu estava bem, não havia quebrado nada. Pedi ajuda para me sentar no chão e, quando me senti pronta, voltei para a cadeira de rodas.
Fui atendida no ambulatório, voltei para casa e passei três dias sentindo dores de cabeça e tontura. Não me preocupei porque o médico avisou que isso aconteceria, mas aí eu descobri que não estava sentindo cheiros. Pimenta, perfume, café, não sinto nada. Corri para o hospital e fui internada para fazer exames.
O médico me explicou que minhas tonturas tinham nome: labirintite pós-traumática. Os labirintos se localizam na região posterior da cabeça e a batida fez com que eles se "desequalizassem". "É normal, isso vai passar". E passou.
Contei que na hora do tombo eu perdi a visão e o médico comentou "ainda bem que voltou, que sorte!".
Só naquele instante me dei conta de que poderia ter ficado cega. O que eu tive foi um "apagão" porque o centro nervoso responsável pela visão também fica na parte de trás da cabeça. Perto do estrago que poderia ter acontecido, não sentir cheiros se tornou insignificante.
Ainda não é definitivo. Isso aconteceu há 2 meses e ainda pode acontecer uma reorganização neurológica no meu cérebro que me devolva essa capacidade, não dá para saber o que vai acontecer. A tomografia mostrou um leve machucado na parte frontal do meu cérebro, bem no lugar em que está o bulbo olfativo.
Sempre me achei muito sortuda e minha tendência sempre é ver o lado positivo das coisas. Em comparação à perda da visão, a ausência do olfato é lucro. Quem aprendeu a viver sem andar, pode aprender facilmente a viver sem cheirar! Certo?
Errado.
Outro dia a panela de pressão estava a ponto de decolar porque não senti o cheiro de queimado.
A comida ficou sem gosto porque boa parte do paladar se faz com o olfato.
Não sinto mais aquela sensação ardidinha gostosa quando escovo os dentes. O creme dental ficou com um sabor adocicado, só isso.
Por último, o que mais sinto falta: o cheirinho dos meus pequenos.
Não estou gostando da experiência.
Em uma situação de incêndio, eu já não podia sair correndo. Agora só vou perceber o fogo quando enxergar a fumaça, ou seja, serei a última a saber! Que sacanagem.
Sempre valorizei os aromas, mas se eu recuperar a capacidade de percebê-los vou valorizar ainda mais. Ganhei tanto da vida, tantas alegrias, aprendizados, surpresas boas... sei que não posso reclamar das perdas, mas... ainda assim, adoraria poder evitá-las.
Me ajuda a organizar os pensamentos em linha reta e é nesse momento que consigo me ouvir melhor.
Não escrevo pensando em um leitor, faço isso para mim mesma de um jeito egoísta - só para mim.
Talvez por isso, eu nunca vá considerar esse espaço pronto para ser apresentado a alguém que não me seja muito íntimo.
Talvez por isso, eu tenha exercitado a redação tão pouco nesse ano.
Tem havido pouco espaço para mim nos últimos tempos da minha vida.
Não é uma reclamação, só uma constatação.
Ficar em São Paulo foi uma ótima escolha nesse fim de ano. Estou tendo um tempo precioso para estar comigo mesma, fazer meu balanço do ano, me ouvir e até escrever. Por que isso ficou tão raro? Muitas das coisas que gosto tanto de fazer, pensar, ouvir, experimentar, estão empoeirando à espera de um momento em que seja possível sua retomada.
Não me refiro a nada novo, sofisticado ou que demande muito empenho. Estou pensando em coisas simples que eu não fiz nenhuma vez em 2008.
Ir ao cinema
Assistir um show de MPB
Passar um dia na praia até o sol se por
Ir á academia
Dormir até o meio-dia
Tomar chope com amigos
Fazer limpeza de pele na esteticista
Ler (passei esse ano inteiro sem ler um único livro! - se continuar assim, vou emburrecer)
Tempo (ou a falta dele) é um tema recorrente das minhas reflexões. Por que é que eu tenho tanta dificuldade em lidar com isso?
Já tive outras crises como esta e sempre chego à conclusão de que sou uma péssima administradora do tempo. Mas, dessa vez é diferente. Dessa vez eu acho que estou mandando bem na gestão dos minutos. Consigo administrar a agenda da família, a manutenção da casa, as tarefas da empregada, o cardápio das crianças, a reposição dos mantimentos, o calendário da consultas medicas de todos, o pagto de todas as contas da casa, alem de dar conta de todas as atribuições profissionais que não valem à pena listar aqui.
Pensando em tudo o que faço, me acho o máximo. Mas, me vejo medíocre quando lembro das coisas que eu não faço. Prometo que em 2009 vou fazer pelo menos uma vez cada um dos itens listados ali em cima. E vou voltar aqui para contar.
Criei esse blog com a intenção de acumular o registro de pensamentos, sentimentos e reflexões pautados no tema da maternidade, experiência ainda pouco permitida às mulheres que - como eu - vivem em cadeiras de rodas.
Quando fiquei grávida e me deparei com a triste realidade de que os médicos desaconselham esse tipo de gestação e que muitas mulheres acabam abrindo mão de ter filhos por pura ignorância, decidi passar a dedicar parte do meu tempo a este assunto. Esse é o meu jeito de retribuir as bênçãos que venho recebendo da vida. O blog é um instrumento que talvez me ajude a organizar informação para disseminar depois. Só que nos últimos meses, o abandonei de novo. Lembrei que ele existe há poucos dias, quando falei dele para um amigo. Então, voltei a escrever.
Lembro de já ter escrito aqui uma vez que tenho tanta coisa boa na minha vida que não tenho tempo de aproveitar todas. Nunca foi tão difícil gerenciar prioridades e encaixá-las no cronograma de cada dia como nos últimos dois anos. Ao mesmo tempo, nunca me senti tão realizada.
Um dia, quero organizar o conteúdo que estou tentando armazenar para ser compartilhado com mulheres que o busquem.
Tenho uma vida muito agitada, mas simples ao mesmo tempo. Gosto das coisas simples. Gosto da ingenuidade, da inocência, da curiosidade. E ser mãe me dá a possibilidade de conviver com isso. Meus filhos me mostram todos os dias o quanto é possível transformar os dias iguais em eventos inéditos. Eles pesquisam e se interessam por tudo. Criam soluções e brincadeiras que eu jamais imaginei que aconteceriam...
Por exemplo, na parte de trás da minha cadeira de rodas há uma barra horizontal que faz parte da estrutura da cadeira. Quando eles começar a ficar de pé e ensaiar os primeiros passos, descobriram nessa barra um excelente apoio para levantar. Logo em seguida, descobriram que podiam andar assim - me empurrando. Na prática, eu virei um andador, você acredita?
Acho muito interessante pensar nisso. A cadeira de rodas, para muita gente, é sinônimo de vida triste, limitação, infelicidade. Pois, na minha vida, na minha casa, é o contrario. Minha cadeira é um dos brinquedos preferidos do Mateus e da Mariana. Eles adoram sentar nela e passear pelo quintal e disputam o lugar onde está essa barra para me empurrar pela casa.
Fico pensando em como será quando eles crescerem.
Vejo o mundo melhorar, mas ainda existe tanto preconceito, tanta falta de informação... tenho medo que eles se magoem com isso.
Taí um desafio para mim. Quero ser a melhor mãe do mundo para o Mateus. Ele e a Mariana são as pessoas mais importantes da minha vida, nunca quis tanto acertar. E, segundo psicólogos, pedagogos e mães experientes, a única certeza que posso ter é que vou errar.
Ser mãe do Mateus é diferente de ser mãe da Mariana. Eu não sou mãe duas vezes, eu sou duas mães! Isso porque cada um precisa de cuidados e estímulos diferentes. Mas, o Mateus é menino e eu não domino as especificidades masculinas. Algumas coisas importantes que acontecem e vão acontecer na vida dele, eu só conheço em teoria. Aliás, desde garota eu sempre invejei a possibilidade que os meninos possuem de faze xixi de pé. Deve ser muito bom isso! Agora, estou me preparando para ensinar meu filho a fazer xixi desse jeito: com um instrumento que eu não tenho para dar o exemplo e de pé, posição que eu não fico. Ainda bem que tem o Pedro para facilitar essa tarefa!
É diferente com a Mariana, para quem posso usar meu próprio corpo como referencia. Quando ela crescer e perguntar sobre como os bebês nascem, acredito que vai ser fácil explicar sobre ovulação, menstruação, concepção, parto. Eu tenho esse repertório disponível no meu corpo. Com o Mateus, falar de ereção, espermatozóides, ejaculação... será outra história.
Desde que era recém-nascido, todos os dias, seguindo as orientações da pediatra, é importante puxar aquele pelinha que recobre o pênis dele para que não seja necessário fazer operação de fimose no futuro. A idéia é que, aos poucos, a pele vá descendo e se acomodando até deslizar com facilidade. Aquilo me dava uma aflição... Semana passada, vi que a pele desceu mais e percebi que por dentro estava bem vermelho. Será que machucou? Será que está doendo? Será que isso é normal? Fiquei ansiosa esperando o Pedro chegar para olhar e me dizer que "é normal, está tudo bem, é assim mesmo, ele choraria se doesse!". Eu não tinha como saber, é a primeira vez que passo por isso, oras!
Esse menininho lindo tem me ensinado tanta coisa! Ele é doce, carinhoso, alegre, adora árvores, flores, animais - especialmente cachorros. Ele gosta tanto de "au au" que já estou até me preparando para comprar um. Vai ser uma festa!
Uma vez, a Mariana teve febre e o Pedro a levou ao Pronto Socorro, enquanto fiquei em casa com o Mateus. De lá, ele me ligou contando ter visto um casal chegar desesperado com um bebê do tamanho dela nos braços. Ele ouvia os gritou "respira! respira!". A criança estava engasgada com um brinquedo. Não deu tempo de socorrer. Ela morreu ali mesmo.
Quando o Pedro me contou isso, me coloquei no lugar daquela mãe e senti uma dor tão grande... Que Deus os ilumine e dê forças. Se fosse com um filho meu, nem sei...
Mariana, sem saber do que estava acontecendo, distribuía tchauzinhos, piscadas e beijinhos aos que aguardavam atendimento. A febre sumiu e ela voltou para casa, acenando em despedida para todos do hospital. Ela é assim: carismática, sedutora, encantadora... linda!
Ter meus filhos bem, saudáveis e felizes é o principal objetivo da minha vida. Só depois do nascimento deles é que compreendi verdadeiramente o significado do amor incondicional. É muito diferente de todo tipo de amor que eu conhecia. Sou uma pessoa muito melhor porque eles existem.
Desde que o Mateus e a Mariana nasceram, quando vejo uma mulher trabalhando, penso “será que ela tem filhos?”. Fico imaginando onde e com quem estão os filhos dela, tentando perceber se ela sofreu tanto quanto eu em deixá-los pequenininhos em casa para retomar a rotina profissional.
Nada é melhor do que estar com eles.
Essa semana, eu descobri que estar com eles não é apenas emocionalmente bom, mas fisicamente também. Meu tio foi em casa me visitar e, me vendo pegar o Homem Aranha no chão para entregar ao Mateus, perguntou: “Nossa, Flávia, desde quando você faz isso?”. Só então eu me dei conta que pegar objetos no chão era muito, muito, muito difícil para mim. Como não tenho equilíbrio de tronco e pouquíssimos movimentos nas mãos, eu raramente me aventurava em alguma tentativa.
A situação mudou, as minhas necessidades e habilidades mudaram com as centenas de vezes que os dois deixaram seus brinquedos caírem no chão. Lembro que era bem difícil nas primeiras vezes, eu demorava até conseguir pegar, mas não me importava e eles esperavam, me olhando com aquelas carinhas sapecas. Muitas vezes, bastava eu entregar o brinquedo para que ele voltasse para o chão. E lá ia eu começar tudo de novo... achando ótimo.
Toda essa brincadeira me rendeu uma melhora de desenvoltura que nem eu mesma tinha reparado nesses últimos meses. Você acredita que agora eu abaixo, pego qualquer coisa e levanto rapidamente e sem quase nada de esforço? Essa e outras conquistas me fizeram concluir que ter filhos é um ótimo recurso de reabilitação J.
As vezes, um olha para o outro e ambos saem engatinhando na mesma direção. Fico perguntando se é telepatia, algum tipo de comunicação alternativa ou pura sem-vergonhice. De repente um faz um barulhinho com a boca, o outro cai na gargalhada e os dois ficam rindo um tempão, sem ninguém entender o motivo.
Me emociona ver a sintonia entre eles.
Gosto de saber que eles terão um ao outro quando eu não estiver mais aqui.
Hoje eu cheguei mais tarde no trabalho. Antes de sair de casa, fiquei com a empregada inspecionando tomada por tomada e colando os protetores com fita adesiva. Sim... eles aprenderam a arrancar aquela pecinha de encaixe que tapa os buraquinhos das tomadas!
Cada dia com eles tem sido único, surpreendente, feliz.
Nesse fim de semana, eu e o Pedro estávamos brincando com eles na nossa cama e, de um minuto para outro, o Mateus se apoiou na janela, se ajoelhou e levantou sozinho. Foi a primeira vez que ele conseguiu levantar sem ajuda. Senti um frio na barriga, uma mistura de medo dele cair e alegria por vê-lo de pé. O sentimento seguinte foi de gratidão por estar ali para assistir aquilo.
Ele ficou lá de pé... todo feliz, exibindo sua conquista, enquanto olhava o jardim que tanto gosta pela janela.
A Mariana sempre faz as coisas antes que o Mateus. Muitas pessoas já me disseram que as meninas são mais apressadas mesmo. O primeiro dentinho dela veio antes, começou engatinhar antes e ficou de pé antes.
Ontem ela estava de pé segurando no sofá e, quando cheguei perto, ela apoiou as mãozinhas nos meus joelhos e subiu no pedal da minha cadeira. Ficou me olhando com aquela carinha de sapeca, orgulhosa do que tinha feito, esperando que eu batesse palmas para ela. Bati palmas, beijei, abracei, apertei... e era eu quem estava orgulhosa do esforço que ela fez para chegar no meu colo.
Ver suas conquistas é melhor do que se fosse uma vitória minha.
Bom, na verdade, são vitorias minhas, mas muito mais importantes do se fosse eu que fizesse.
Sinto a alegria deles multiplicada no meu coração cada vez que eles riem.
Estava revendo minhas últimas postagens e... que coisa, tenho vindo aqui no máximo uma vez por mês para registrar situaçoes na categoria "saiu na mídia".
Eu e o Pedro nao estamos tendo tempo para nada, o dia-a-dia tem sido uma loucura e nao tenho conseguido escrever.
Depois da matéria do Fantástico, minha caixa de e mail nao para de lotar com mensagens de mulheres com deficiencia de todo o país em busca de orientaçoes, referencias e dicas sobre assuntos relacionados à sexualidade, à maternidade e à vida na cadeira de rodas. Estou me esforçando p/ responder a todas... as vezes demoro, mas estou coseguido dar todos os retornos. Assumi essa responsabilidade quando fui à tv dar esse recado e agora tenho que me virar p/ dar conta, certo?
Essa demanda enorme tem servido para me mostrar que o meu documentario é necessario. Tenho certeza que o nosso filme será inspiraçao, motivaçao e informaçao para um monte de gente.
Quero que mais pessoas vivam o que estou vivendo.
O Mateus e a Mariana completaram 10 meses ontem.
Cada dia que passa estao mais fortes, mais espertos, mais independentes, mais rápidos, mais risonhos, mais falantes, mais lindos!
E eu, mesmo sem tempo para tudo o que queria fazer e nao consigo, continuo sendo a mulher mais sortuda do mundo!
domingo, 2 de março de 2008, 00:00 | Versão Impressa
Mãe vitoriosa
Atuante na defesa dos direitos dos deficientes, a tetraplégica Flávia Cintra vivencia agora as alegrias da maternidade
Fabiana Caso - O Estado de S.Paulo
SÃO PAULO - Na sua casa, transborda vida. O casal de gêmeos, de olhos grandes, faz barulhinhos, a babá vai para lá e para cá, a avó prepara a papinha deles, acompanhada da tia dos pequenos. Mas quem comanda toda a movimentação é Flávia Cintra, a mãe orgulhosa. De sua cadeira de rodas motorizada, atende a reportagem, o telefone, brinca com os filhos e dá ordens para todos, com tempo ainda para um sorriso maroto. Tetraplégica, Flávia é uma das brasileiras mais atuantes no trabalho de defesa dos direitos dos deficientes. Contrariando médicos, deu à luz aos gêmeos Mariana e Mateus, que estão com 8 meses.
Criada em Santos, Flávia cresceu jogando pelada, subindo em árvores e brincando na rua. Os pais se separaram e ela começou a trabalhar aos 13 anos. Ajudava no orçamento familiar e cuidava dos três irmãos menores enquanto a mãe trabalhava como professora. Era secretária, mas fazia alguns bicos como modelo e manequim - vistosa, tem 1,80 metro de altura.
Foi aos 18 anos que sua vida mudou. O namorado que tinha naquela época guiava o carro, voltando de uma viagem à Serra da Bocaina, na rodovia Anchieta. Na noite com neblina, tentou desviar de um corpo jogado na estrada, ao lado de uma moto. O carro capotou.
Já no dia seguinte ao acidente, Flávia percebeu que a situação era grave quando viu toda a família no hospital (incluindo o pai e a mulher dele). "Lembrei que minha irmã caçula tinha prova e perguntei o que ela estava fazendo lá", lembra, emocionada. Mesmo tendo usado cinto de segurança, sofreu uma lesão medular, ou seja, quebrou o pescoço. Num primeiro momento, tinha certeza de que a imobilidade era temporária. "Fiquei desorientada. A sensação de injustiça era muito grande, porque sempre tinha sido uma boa filha, era responsável", conta. "Mexe com a auto-estima e a referência de si mesmo."
Flávia havia se reconciliado com o pai pouco tempo antes do acidente. Lembra que ele foi uma figura essencial naquele momento. "Ele voltou a ter autoridade e tomar decisões. Apesar de eu contestar, precisava disso na época." Depois de uma cirurgia no pescoço, ela passou quatro meses no hospital e depois oito meses na cama, em casa. Teve uma infecção no osso, porque a haste que foi colocada em seu pescoço saiu do lugar. O pai vendeu o carro e conseguiu resgatar dinheiro da época do Plano Collor para pagar a conta do melhor especialista. "Não teria sobrevivido se não fosse por isso", fala. Seu pai morreu dois anos depois do acidente.
Já a mãe cuidava dela de perto, diariamente. "Ela é maravilhosa. Encontrou uma capa super impermeável para a cama e me dava banho de balde, lavava meu cabelo, que era comprido. Dava um trabalhão, molhava todo o quarto e ela secava tudo", conta Flávia, que, na época, precisava de auxílio para fazer tudo: tomar banho, comer, escovar os dentes.
Quando ficou melhor, passou a freqüentar o centro de recuperação da Associação de Assistência à Criança Deficiente (AACD), na capital paulista. Depois de várias terapias, saiu de lá comandando a própria cadeira - havia chegado numa maca, porque não conseguia sentar. Se, a princípio, olhava os outros pacientes como "coitados", mudou bem de opinião. "Entendi o que tinha acontecido com meu corpo e percebi que minha situação era tão irreversível quanto a deles." Uma grande inspiração foi a palestra promovida na AACD com João Carlos Pecci, artista plástico e escritor, que também tem deficiência e é irmão do cantor e compositor Toquinho.
Foi aí que Flávia ponderou: ou ficava na cama tendo pena de si mesma e esperando por um milagre, ou voltava a viver, explorando seus potenciais. Felizmente, escolheu a segunda opção, sem perder tempo. "Percebi que havia tido muita sorte por ter conseguido um bom médico e atendimento na AACD, mas que fazia parte de uma elite. O processo de reabilitação é para poucos." Decidiu, então, batalhar por melhorias para as pessoas com deficiência. "Entendi que informação era poder, ainda mais naquela época, quando a internet estava só começando."
Passou a desenvolver projetos. Inicialmente, promovia ações como abaixo-assinados para a construção de rampas de acesso. Depois de ter participado do congresso Deficiência e Mídia, percebeu que a pessoa com deficiência sempre é mostrada como coitada na imprensa. Pensando em mudar essa imagem, foi fazer um curso na ONG Centro de Vida Independente, no Rio de Janeiro, e acabou fundando a mesma ONG em Santos. Por cinco anos, atuou fazendo palestras, trabalhando em defesa dos direitos dos deficientes e pela conscientização da sociedade.
Ao mesmo tempo, retomou a própria vida: voltou a sair, ver os amigos, ir para a balada e namorar (com a mesma pessoa do acidente). "Eu reencontrei formas de prazer no meu próprio corpo, me reencontrei como mulher. A deficiência me deu o autoconhecimento. Tive que aprender a conhecer cada milímetro do meu corpo para desenvolver minha sexualidade", conta. "Tenho sorte, porque não perdi a sensibilidade do meu corpo, só os movimentos. Mas, mesmo as pessoas que perderam a sensibilidade, podem se realizar muito com sexo. A maioria não sabe a diferença entre ejaculação e orgasmo: o segundo acontece na cabeça. Mesmo se a pessoa não tiver deficiência, não atinge o orgasmo se não estiver aberta e não se entregar."
ONU
Poucos anos depois de ter participado do programa de reabilitação, Flávia voltou à AACD como palestrante. Em 1997, foi selecionada pela Organização das Nações Unidas (ONU) para fazer um treinamento em Washington, sobre liderança de mulheres com deficiência em países do terceiro mundo. Voltou cheia de idéias.
A partir de um projeto que escreveu, a universidade UniSant?anna implantou um Centro de Informação sobre Vida Independente. Dois anos depois, com a assinatura do decreto da Lei de Cotas - que obriga empresas com mais de 100 funcionários a reservar de 2% a 5% das vagas para pessoas com deficiência -, voltou seu foco para a inclusão social. Foi uma das fundadoras do Instituto Paradigma, onde tinha o cargo de vice-presidente. Lá, coordenava equipes que promoviam capacitação para o mercado de trabalho e fazia pressão para que as empresas cumprissem a lei. Foi quando mudou-se definitivamente de Santos para a capital paulista, com a mãe e dois dos irmãos menores. Detalhe: a caçula, Fabíola, resolveu cursar Fisioterapia desde o seu acidente.
Em 2006, Flávia voltou para a ONU como integrante da comissão brasileira para o lançamento da Convenção Internacional das Pessoas com Deficiência. "Foi lindo! Passei um mês na sede da ONU, em Nova York, trabalhando no conteúdo desse documento importante." Quando voltou, deixou o Instituto Paradigma e tornou-se diretora executiva da I. Social, uma consultoria focada em inclusão econômica das pessoas com deficiência, que desenvolve cursos de capacitação para o mercado de trabalho. Hoje também trabalha como diretora adjunta do Instituto Brasileiro da Diversidade.
A atividade profissional intensa cobrou dividendos na vida pessoal. Depois de uma série de namorados, levou um fora marcante. "Ele me disse que eu era independente demais", lembra, divertindo-se. Passado algum tempo, a balança penderia para o outro lado. Conheceu o advogado Pedro Corradino, engajado em Direitos Humanos, e deram início a um relacionamento sério. Depois de uma viagem romântica,foram surpreendidos pela notícia da gravidez de Flávia.
Já planejavam se casar, mas tudo foi antecipado porque ele queria acompanhar cada momento ao lado dela. Passaram a morar juntos há um ano e meio na casa que Flávia compartilhava com a família - a mãe e os irmãos mudaram-se para outro imóvel a apenas três quarteirões. "Todos ficaram muito surpresos pelo fato de eu poder ficar grávida, apesar da minha deficiência."
O casal se debateu com a falta de informação sobre o assunto, e o primeiro médico desaconselhou a gravidez. De fato, havia riscos, como o de desenvolver uma trombose, ainda mais porque os bebês eram gêmeos. Mas, finalmente, encontraram uma médica interessada no caso, que administrou os medicamentos corretos para prevenir os possíveis problemas. "Minha gravidez foi maravilhosa e super saudável, porque tive acesso a todas as informações. Reduzi as atividades profissionais, mas não parei de trabalhar", conta.
Ficou tão feliz e realizada como mãe que só voltou a sair de casa e retomar alguns trabalhos quando os gêmeos tinham 6 meses. "É um amor diferente de tudo que conhecia. Não tinha vontade de fazer mais nada além de ficar perto deles." Ela tem uma babá para ajudá-la em tarefas como colocar os pequenos na banheira e fechar os botões das roupas deles. "Mas quem dá banho e escolhe o que vão vestir sou eu", apressa-se em dizer.
Sua gravidez gerou muita curiosidade e uma série de e-mails de mulheres deficientes, que também sonham com a maternidade, mas nem sabiam que isso era possível. Flávia cita um dado curioso: há uma alta incidência de câncer de colo de útero entre mulheres com deficiência. "Os médicos partem do pressuposto de que elas não têm vida sexual e, por isso, não pedem o Papanicolau", alerta. Não há estatísticas precisas sobre o número de deficientes que engravidaram, mas Flávia conta que, em 30 anos, a AACD atendeu apenas 10 grávidas.
Quando perceberam a falta de informações a respeito do assunto, Flávia e Pedro, seu marido, tiveram a idéia de fazer um documentário sobre o tema. Filmaram todos os momentos da gestação e o parto, que foi uma cesária tranqüila, aos oito meses. Agora, estão colhendo depoimentos de outras mulheres com deficiência pelo Brasil afora, que também tiveram filhos. Estão tocando as filmagens em parceria com outros cineastas - o documentarista João Jardim é um deles -, mas precisam de patrocínio para finalizar o projeto. "Não queríamos que fosse apenas sobre a minha história, mas algo mais amplo. Temos que fazer isso paralelamente às nossas outras atividades", esclarece Flávia, cujo cotidiano como mãe também está sendo registrado.
Hoje, aos 35 anos, ela recuperou o movimento dos braços e faz quase tudo sozinha: come, toma banho, trabalha muito, é mãe. Tem uma motorista que a leva para os compromissos e precisa de ajuda para ser colocada na cadeira e na cama. Está retomando as atividades profissionais aos poucos - não sem a dor no coração típica das mulheres modernas, que trabalham longe dos seus filhos.
Escrevo tanta coisa mentalmente enquanto estou no chuveiro, no transito ou na cama, antes de dormir... Sempre acredito que “amanhã vai sobrar um tempo e vou colocar esses pensamentos em um texto”, mas o dia acaba e nunca sobra esse tempo.
Daqui há uns dias, vou fazer 35 anos. Não me percebi com 34! Estava grávida no meu ultimo aniversario e, de lá para cá, aconteceu tanta coisa que parece que se passaram 10 anos. Ao mesmo tempo, parece que meu ultimo aniversario foi no mês passado.
Outro dia, enquanto explicava a uma amiga o quanto minha vida anda corrida, ouvi “Nossa, eu imagino, tenho uma colega que nunca mais conseguiu nem passar hidratante depois que o filho dela nasceu. Faço idéia de como isso é para você que tem dois!”.
Hidratante???
Só então me dei conta que há meses não toco nos meus tubos de creme. E o mais interessante é que não tinha pensado nisso ainda. Me dou por satisfeita quando, depois do xampu, ainda tenho tempo para passar condicionador!
O tempo não para e não posso mais ficar só em casa com os bebês. Desde que completaram seis meses, me propus começar retomar, aos poucos, minhas atividades profissionais. Trabalhar à distancia está ficando inviável, comecei a sofrer por não participar das transformações sociais que idealizo, criar, realizar. Então, iniciei o doloroso processo de cortar o cordão umbilical. Como é difícil... tenho saído por meio período e passo todo o resto do tempo com eles, mas quando chega a hora de entrar no carro, eu choro.
Meu marido tem sido um santo para agüentar minhas lamúrias. Mas, sei que logo vai passar. E também sei que o Pedro está apostando nisso!
Chegar em casa e ver os dois sorrindo para mim faz qualquer cansaço desaparecer. Hoje apareceu o primeiro dentinho da Mariana. Em poucos dias, o mesmo vai acontecer com o Mateus... ele não para de coçar as gengivas!
Meu sofrimento é resultado de haver tanta coisa boa na minha vida que faz o calendário se tornar insuficiente. Então, é melhor eu parar de reclamar, né?
Outro dia apareceu um rato aqui em casa. Ele passou correndo entre a sala e a cozinha, fazendo disparar gritos da babá e da empregada. Ele era pequeno, mas com um rabo enorme. Tenho horror a ratos, mas o medo que ele pudesse morder um dos meus bebês me deu coragem para enfrentar a fera.
E se ele subir pelas minhas pernas e me morder? Ai... antes isso que esse monstro atacar um nenê! O Pedro só chegaria a noite e eu não podia esperar.
Tracei um plano de ação para caçar o animal, me armei com uma vassoura e municiei a Quitéria e a Sol com rodo e pá de lixo para executar minha estratégia. Nos fechamos na cozinha para encurralar e expulsar o indesejável invasor. Arrastamos armários, fogão, geladeira e nada dele aparecer. Esvaziamos tudo e nem sinal! A tensão e a expectativa aumentavam e nada do bicho dar o ar da graça. Comecei sentir uma ponta de alivio por não ter que encará-lo, mas essa sensação logo era substituída pela preocupação com os bebês. Ele tinha entrado na cozinha, sabia que estava ali, mas não havia mais onde procurar. Desistimos por hora. Passei o resto do dia alerta, atenta a barulhos, vultos, movimentos e resmungos dos bebês. Acabou o meu sossego.
O Pedro comprou uma ratoeira e a deixamos armada debaixo da pia com um pedaço de queijo, acreditando que na manhã seguinte teríamos capturado aquele espertinho. Demorei para dormir e passei a noite tendo pesadelos do tipo “os ratos invadem NYC”.
A ratoeira amanheceu intocada e não encontramos cocô de rato em nenhum lugar da casa.
Estou achando que naquela hora que ele entrou na cozinha, logo saiu para o quintal e foi embora. Tomara!
A Passeata Movimento SuperAção - Incluindo Diferenças em Defesa dos Direitos Humanos reuniu mais de 2 mil pessoas na Av. Paulista, no dia 1o de dezembro de 2007, em comemoração ao Dia Internacional da Pessoa com Deficiência.
O evento foi organizado pelo Movimento Superação e a Associação Mais Diferenças.
Maíra Soares, fotógrafa que possui um olhar sensível e talentoso, cobriu o evento e publicou suas fotos em http://www.flickr.com:80/photos/mairasoares/
Eu e o Pedro levamos o Mateus e a Mariana para conhecer os nossos amigos e marcar presença nessa importante manifestação. Ano que vem a gente volta, quando os gêmeos já estarão caminhando.
Outro dia fui almoçar com uma amiga cadeirante que também é mãe. Durante a conversa, é claro que o assunto mais interessante era o que tratava do universo dos nossos pimpolhos e das soluções encontradas por cada uma para as situações em que a deficiência aparece desafiando nosso desempenho.
Compartilhamos alegrias, descobertas, dúvidas, opiniões pedagógicas, queixas, criticas, medos, planos, escolhas... enfim, ficamos lá no restaurante até quase ser hora do jantar.
Uma hora ela me contou sobre o quanto sofreu quando seu filho se acostumou a ficar no colo das pessoas andando para lá e para cá. Isso estava acontecendo comigo exatamente naquela semana e não sabia mais o que fazer quando a Mariana não parava de chorar no meu colo.
Avós, tios, tias, primos, amigos e todos que nos visitam querem pegar os bebês no colo e costumam ficar de pé. Além disso, existe um hábito de se ficar sacudindo a criança que sempre achei horroroso e, desde que meus filhos nascerem, peço para evitarem chacoalhar os nenês desse jeito. O que eu não pensei é que eles pudessem se acostumar e querer ficar no colo só de pé! Pois a Mariana e se acostumou e preferia o colo de qualquer desconhecido que ande com ela ao meu. Nada do que eu fizesse a tranqüilizava e chorava gritando até que eu a entregasse para alguém de pé. Então, ela parava de chorar e eu começava!
Minha amiga está planejando outro filho e disse que, quando nascer seu segundo bebê, a ordem será para que quem quiser pegá-lo no colo que o faça sentado. Se eu soubesse disso antes...
Será possível que eu mereço uma filha que queira que eu ande?
Tentei de tudo. Segurava a Mariana, deitada, no ombro, de bruços, de lado, sentada, com a barriga para frente, andava pela casa com ela no colo na cadeira motorizada, levava no jardim, cantava, conversava, fazia careta... e ela continuava gritando até que a babá, o Pedro, minha irmã ou qualquer pessoa a pegasse e começasse andar com ela.
Nos duas estávamos sofrendo verdadeiramente com essa situação. Eu sabia que a única solução era insistir, mas tinha medo de “traumatizar”, tinha muita pena de vê-la chorando daquele jeito e ainda passava pela minha cabeça que ela pudesse ter raiva de mim por causa daquilo.
Chegou um dia que me fortaleci e decidi resolver aquela situação. Ela chorou uma hora e quarenta minutos no meu colo, enquanto esperei pacientemente que ela se acalmasse. Enquanto gritava, conversava com ela no tom mais doce possível, dizia que a amava, explicava que não podia levantar, que estava fazendo aquilo pelo nosso bem. Houve momentos em que eu quase chamei a babá. Parecia que ela ia chorar para sempre, mas sabia que minha persistência tinha que ser maior que a dela.
A menininha é fogo, viu... quando fica brava é difícil negar o que ela quer. Mas, infelizmente, não posso educá-la fazendo todas as suas vontades porque a vida não a tratará assim. Naquele momento, precisava fazê-la aceitar isso e confiar em mim. Chegou uma hora que, exausta, ela parou de chorar e dormiu no meu colo. Continuei com elas nos braços sem saber o que fazer. Enquanto pensava se a colocava no carrinho, no berço ou se esperava um pouco mais, ela abriu os olhos, me olhou, deu um sorriso e voltou a dormir.
Adorava sentir os nenês se mexerem e ir a uma consulta de ultrassom me causava expectativa semelhante ao que se sente nas vésperas do show do U2.
Não tive enjôos ou azias. Sentia paz e tinha certeza de que tudo daria certo.
Estar sem fazer nada, quando eu estava grávida, nunca era apenas um momento de ócio. Eu sabia que estava produzindo milhões de células, que se dividiam em outros milhões, para gerar o Mateus e a Mariana. Então, estava realizando a atividade mais importante da minha vida!
Me alimentava com qualidade e equilíbrio, dormia muito, bebia água em abundância, assistia todos os filmes que tinha vontade, me sentia saudável, bonita e criativa.
As emoções também eram superlativas. Acho que não houve um dia da minha gravidez que eu não tenha chorado. Se trocasse o canal da TV e me deparasse com uma cena romântica de um filme, eu chorava! Todos os dias, eu assistia um programa sobre partos no Discovery Home Healf e quase me tornei especialista no assunto de tanto que eu vi o bendito programa! Quando o parto era tranqüilo, eu me emocionava e quando era complicado, chorava também!
O tempo se arrastava, mas as vezes parecia passar rápido demais.
Minha barriga ficou linda... redonda, enorme! Minhas roupas não me serviam mais e, nos últimos meses, nem a minha cadeira de rodas me servia mais! Uma vez eu fui comprar um vestido e a vendedora perguntou qual era o meu numero. Eu respondi: “muito grande, você tem?”. Não tinha a menor idéia de que número eu usava, pois a cada mês as minhas medidas mudavam. No final, o peso da barriga se tornou desconfortável e ficou difícil respirar, mas ainda assim eu me sentia feliz, segura e plena.
Quando chegou o dia deles nascerem, parecia que eu estava dentro de um filme. O Pedro estava uma pilha de nervos e preferiu deixar a Fabiola dirigir até o São Luiz. Minha mãe e minhas irmãs estavam eufóricas, enquanto eu era o retrato da serenidade. Me sentia abençoada, protegida, cuidada, forte e feliz. Estava com muita vontade de conhecer o rostinho dos meus bebês, mas não me sentia ansiosa.
Eles chegaram lindos, fortes, chorando alto e tiraram nota 10 no APGAR!
O Mateus nasceu primeiro, às 7:30h, e a Mariana 4 minutos depois. O pessoal da Cryopraxis estava lá para colher o sangue dos cordões umbilicais e o Pedro cortou o cordão da Mariana.
As vezes, quando a Mariana chora, o Mateus começa a chorar junto. Ele grita com todas as suas forças e só para quando um de nós chega para atender a Mariana.
Isso acontece desde que eles tinham semanas de vida. No começo, demoramos a acreditar. Mas, depois de vermos esse comportamento se repetir tantas vezes, já sabemos que ele a ajuda a pedir ajuda! Basta que a Mariana seja atendida para que ele silencie.
Esse tipo de cumplicidade deve fazer parte do repertório tão estudado sobre o vínculo emocional que existe entre os gêmeos.
Eles adoram se olhar, se tocar e sempre que podem seguram a mãozinha um do outro.
Escrevi esse texto em julho de 2004, mas poderia ter sido ontem.
O tempo nos nossos tempos
Segundo semestre. Metade do ano já passou, mal posso acreditar... outro dia, eu estava brindando o reveillon na praia! Minha sensação é que a qualquer momento vão me dizer que é natal, você também sente isso?
Quando eu era criança, os adultos comentavam que o tempo passava muito depressa. Não entendia como os acontecimentos de um ano tão longo passavam despercebidos aos olhos deles. Para mim, o último natal era uma lembrança antiga e o próximo sempre demorava a chegar.
O tempo passou, me tornei adulta e me flagro assustada com a velocidade que o tempo passa!
Com tanta coisa para fazer, cronometramos o tempo das tarefas e se não damos conta de tudo que foi programado, nos sentimos culpados. Você já se sentiu assim? Eu já.
Nos queixamos da falta de tempo para fazer coisas que desejamos e não cabem na agenda. Muitas situações dependem de uma escolha consciente, mas outras exigem um olhar individual que respeite o tempo de cada pessoa.
Como você ocupa as 24h do seu dia? Conheço quem durma 5h e acorde bem. Se eu dormir menos que 8h me sinto péssima. Em quanto tempo você sai de casa depois que acorda de manhã? Meia hora? Eu demoro, no mínimo, 1:30h. Sair de casa, para mim, não é só passar pelo no chuveiro, pular dentro de uma calça jeans e correr para o trabalho. O cotidiano matinal de alguém numa cadeira de rodas inclui rituais demorados, não há como evitar. Só nessa ilustração, já contabilizei 4h de prejuízo do meu tempo comparado a outras pessoas. Se ainda considerar os minutos que levo para me transferir da cadeira para o carro e vice-versa ou para ir ao banheiro ao longo do dia, vou chegar a um número de horas que prefiro nem saber!
A velocidade cada vez maior com que as informações circulam e novos eventos acontecem fazem parecer que estamos sempre atrasados. Mas, apesar das possibilidades, convites, solicitações e opções que temos diariamente sobre novos cursos, leituras, shows, workshops, filmes (e etc, etc, etc...) se multiplicarem em progressões geométricas, os dias continuam tendo as mesmas 24h.
Essa consciência é fundamental para que possamos aprender administrar o tempo de um jeito que não nos sintamos frustrados no fim da semana, do mês ou do ano. O exercício de respeitar o próprio tempo e o de cada um, organizando os ajustes necessários em cada situação, é o que vai fazer diferença na construção das relações cooperativas, aquelas que fazem com que todos os envolvidos cresçam, aprendam e se tornem melhores a partir da experiência do outro. Levar em conta o tempo do outro nos possibilita ampliar nossas experiências e potencializar nosso desenvolvimento pessoal. Vale à pena, afinal não temos tempo para viver tudo o que gostaríamos, não é verdade?
Que nesse semestre o relógio marque o tempo necessário para que você realize o que for importante em cada espaço, de cada jeito, com cada um, em cada momento. Que você possa viver no seu tempo. E que, assim, você não se surpreenda quando o natal chegar!
Não imaginei que o aprendizado para compreender minha deficiência seria aplicado numa situação tão antagônica à daquela época.
13/11/07
Ver as conquistas dos meus filhos, de vez em quando me faz lembrar a época da minha reabilitação. Aos 19 anos, mover os braços para depois segurar objetos foi o meu grande desafio. Nesse período estudei sobre o sistema nervoso central e aprendi como o corpo produz os movimentos, com o complexo bale de neurônios que transportam os impulsos elétricos emitidos pelo cérebro.
Depois do acidente, durante a reabilitação e pouco tempo depois, o meu maior desejo foi poder voltar a andar. Falava-se de pesquisas promissoras acontecendo nos Estados Unidos e em Cuba, mas que andavam a passos de tartaruga diante da minha ansiedade por voltar a caminhar.
Nunca imaginei que todo aprendizado que tive para compreender minha deficiência seria aplicado numa situação tão antagônica à daquela época. Estudei o sistema nervoso central para compreender a perda dos meus movimentos. Hoje, vejo nos meus filhos a experiência inversa. São milhares de conexões sendo produzidas o tempo todo, enquanto meus pequenos experimentam e inauguram novos movimentos, gestos e expressões.
Primeiro eles descobriram que, movimentando os braços, podem tocar o que quiserem. Em seguida, perceberam que fechando os dedinhos conseguem segurar seus brinquedos. Agora, associando estas duas habilidades, ambos estão concentrados em levar objetos conscientemente até a boca. Passo horas assistindo os dois trabalhando nessas tarefas. Seguram a chupeta, olham por um tempo a própria mãozinha e começam a levá-la na direção da boca. As vezes a chupeta cai e as vezes eles erram o caminho da boca, mas não desistem. Logo eles vão conseguir cumprir esse objetivo e partirão para o próximo desafio.
Li que o Piaget desenvolveu todas as suas teorias sobre desenvolvimento infantil observando os próprios filhos. Consigo imaginar como foi que isso aconteceu, pois mesmo sem tanto conhecimento pedagógico, fico maravilhada com o amadurecimento diário que vejo nos meus bebês.
Ontem, a Mariana colocou a mãozinha tão dentro da boca que vomitou todo o leite que havia mamado. Eu e o Pedro tomamos um susto e, enquanto a socorríamos, ela ficou parada olhando seriamente para a própria mão. Nada do que fazíamos a desconcentrava da sua mãozinha. Parecia que ela estava tentando compreender o que tinha acontecido. Eu não duvido que estivesse!
Ouvi dizer que ter gêmeos é ter trabalho em dobro. Não sei como é ter um único filho e, na falta de outra referência, não percebo diferença. Mas, tem uma coisa que eu concordo que seja em dobro: a alegria.
Amo Mateus e Mariana desde que soube que eles existiam (no 1º mês de gestação) e sabia que para cada dificuldade haveria uma solução. Houve quem duvidasse que eu pudesse cuidar dos meus filhos por causa da minha deficiência, mas eu e meu marido sempre tivemos certeza que tudo daria certo. Eu sabia que haveria uma série de situações em que esbarraria nas minhas limitações, mas também sabia que ser mãe é muito mais do que desempenhar tarefas físicas.
Agora que os nenês estão com três meses, eu e meu marido confirmamos nossa convicção. Para cuidar deles, tivemos que organizar uma estrutura que suprisse as atividades físicas que não consigo realizar sozinha. Além do maridão, não faltam tias e avós dispostas a ajudar, mas no dia-a-dia conto com a ajuda de uma babá para dar banho, vestir as roupinhas (com aqueles mini-botões de pressão impossíveis de fechar com minha mão de tetra!), colocar e tirar os nenês do carrinho, etc. Na medida em que eles vão crescendo, vou conseguindo fazer mais coisas com autonomia, já que eles vão ficando mais firmes e menos frágeis.
Eu gostaria de não precisar de ajuda e poder fazer tudo sozinha com meus dois bebês. Mas, descobri que isso não é o mais importante, pois consigo oferecer aos dois tudo o que eles precisam. A babá me dá suporte operacional, mas sou eu quem sabe como é a carinha que a Mariana faz quando tem cólica, a expressão do Mateus quando quer fazer cocô, o gesto que eles fazem quando é hora de arrotar. Conheço o choro de cada um e, mesmo à distância, sei quando o Mateus está reclamando porque caiu a chupeta ou quando a Mariana está ranhetando porque quer colo. Controlo o horário das mamadas, da troca das fraldas, do banho e decido roupinha que cada um vai vestir, dependendo da temperatura do dia.
Vivo e vibro cada conquista deles. Nessa semana, o Mateus se dedica a estudar o movimento necessário para levar o bracinho até o brinquedo pendurado no berço, enquanto Mariana se concentra em encaixar os dedinhos dentro da própria boca. Eles ainda não sabem que quando fecham as mãozinhas podem pegar objetos, mas já descobriram que podem controlar os braços para tocar o que lhes interessa. Eles dão gritinhos de alegria quando conseguem atingir o alvo, riem quando converso com uma voz que só faço com eles e conhecem o barulho da minha cadeira motorizada. Me procuram com os olhos quando me ouvem chegando! E, então, me sinto a pessoa mais importante do mundo.
Nunca mais vou estar bem se os dois não estiverem bem.
Li em algum lugar que ser mãe é ter o coração pulsando do lado de fora do corpo e essa é a definição mais exata que encontrei para descrever meu sentimento desde que eles nasceram.